SOLO: Marta Cruz

Pink Matter

SOLO: Marta Cruz

por16 Mar 2017 lmanifesto

Porque a cor em destaque nos remete para o universo feminino, escolhemos entrevistar uma forte figura feminina, que tem sobressaído no meio artístico actual. Marta Cruz é a mulher por trás da Tara Gallery, a galeria (ou agente cultural) que tem gerado tanto buzz nos últimos meses e que representa artistas como Kid Richards e Mike Ghost.

 

Texto: Filipa Leal

Fotografia: Soraia do Carmo

Com 34 anos, Marta é licenciada em Urbanismo e apaixonada, desde sempre, por arte e fotografia. O mundo das galerias surgiu por acaso, quando o trabalho em atelier deixou de ser suficiente para satisfazer as ambições da jovem arquitecta. Aos 30 anos, Marta foi convidada para expor alguns trabalhos na Pequena Galeria e acabou por se tornar sócia do espaço, dando, assim, os primeiros passos na arte da curadoria.

“Entrei numa das primeiras exposições colectivas, com uma ou duas fotografias, mas depois organizei logo uma exposição e deu-me imenso gozo. Comecei a apaixonar-me por aquilo tudo e a pensar que era aquilo que eu queria fazer. Entretanto, saí da galeria, há dois anos, mas já com a ideia de fazer alguma coisa nesse sentido. Comecei a trabalhar a ideia da Tara, aos poucos e poucos, e tenho estado a trabalhar muito nisso nestes dois últimos anos. E agora lancei, finalmente, a Tara Gallery.”

“Neste momento, o meu foco é apenas na Tara e em avançar com o projecto da melhor forma possível. É uma coisa que exige muito de mim, porque o trabalho com os artistas é bastante intenso. Com o Kid Richards, por exemplo, demorámos um ano a preparar o lançamento do livro. É um trabalho muito exigente, muito emocional até, não consegues separar as coisas. Os artistas são pessoas muito sensíveis e eu acho que é necessário, da minha parte, haver também essa sensibilidade e essa entrega, para as coisas conseguirem evoluir.”

“Acho que, muitas vezes, eles [artistas] quase não têm tempo (ou cabeça) para pensar nesta orientação ou na estratégia, pensar no que querem ou devem fazer e como devem fazer... É mais fácil para alguém que está de fora ter essa perspectiva, conhecendo bem o artista e o seu trabalho. E isso é aquele “baby sitting” do curador, mas é uma coisa que também me dá muito gozo.”

“Há muitas pessoas que pensam que o trabalho de curador é um bocadinho ingrato, porque estás sempre "na sombra", a promover os outros. Eu não o encaro assim, porque sei que também faço parte daquele projecto, não interessa se dura dois meses ou um ano, eu faço parte daquilo. Não há a questão de estar na sombra, de aparecer mais ou menos, porque estamos todos a trabalhar para o mesmo objectivo, logo, o sucesso é partilhado. Há uma relação muito próxima com os artistas e o seu trabalho. É claro que é uma opção minha manter as relações assim tão próximas... E é cansativo, tenho de gerir muita coisa, muitos egos, muito trabalho, muitas decisões. Mas é esta a forma como eu quero fazer as coisas, e dá-me muito mais prazer.”

“Estou sempre a dizer que, um dos meus objectivos com a Tara, é trabalhar o público, porque vamos ter sempre artistas e talento também. Isto tem a ver com a nossa educação no geral, o nosso público não está educado culturalmente... Daí que a minha função principal, o meu objectivo, seja trabalhar o público. Quero criar coisas diferentes, em que o público consiga interagir mais, por exemplo. Hoje em dia, pensamos de forma diferente quando vamos a uma exposição, uma exposição tem de ser fotografável para as redes sociais, é aí que está a tua comunicação, é aí que está tudo... E é um desafio muito maior.”

“Este tipo de talentos ainda não são valorizados, é um facto. Do que eu consigo ver, por cá ainda não são considerados artistas, porque ainda há muito aquele pensamento de que tem de existir um percurso clássico. Mas a maravilha dos nossos tempos é que isto está a mudar todos os dias, a evoluir ou a regredir, mas sempre em mudança. E eu acredito que vai mudar muito rapidamente, principalmente cá em Portugal, porque lá fora já acontece – um artista é um artista, independentemente dos materiais que usa e da formação que tem, tem a ver com criatividade, apenas. E hoje em dia, a Internet permite que os artistas partilhem de imediato e comuniquem muito mais o seu trabalho. Antigamente, se querias ser artista, tinhas de passar por uma galeria, tinhas de provar mais coisas a mais pessoas. Hoje em dia, basta quereres, basta produzires, basta criares, e podes colocar à disposição de toda a gente. Mas há um grande preconceito... Eu acho que é artista aquele que se sente como tal e que cria para isso. Para mim, basta que se sintam como artistas e que queiram fazê-lo. É a vontade que faz o artista.”

“A questão dos “artistas da Internet”, como lhes chamam... Eu sei que me vão apontar o dedo, como já fizeram, já me disseram que isto é tudo uma brincadeira. Mas não é, é o mesmo tipo de trabalho de qualquer outro artista. A diferença é que estes já têm algumas fotografias na Internet, sim, mas hoje em dia todos temos, não é por aí. Sei que isto é uma das coisas que nos vão apontar, de certeza, mas eu não tenho qualquer preconceito em abranger vários tipos de artistas, para mim são igualmente válidos. Acho que esta transição vai ser uma das próximas problemáticas no mundo artístico... Existem muitas barreiras e é um desafio muito grande, não só para estes artistas mas para a galeria em si. Há um trabalho acrescido para que as coisas aconteçam.”

“Quando pensas numa galeria, e isto é uma das primeiras perguntas que me fazem, pensas num espaço físico. A Tara não tem espaço físico... Então comecei a encontrar vários obstáculos, logo desde o início. E em vez de não avançar com o projecto, passei estes dois anos a tentar encontrar soluções, e a tirar preconceitos da minha cabeça também, porque para mim, uma galeria tinha de ter um espaço... E tem: a Internet! E esta parede para quem quiser visitar, embora seja uma coisa mais privada. Mas fui tirando esses obstáculos da frente e a Tara surgiu muito das soluções que fui encontrando. Se calhar se a lançasse no próximo ano, saía uma coisa diferente, mas neste momento, estou feliz com o que tenho. Sei que nos falta imenso trabalho, imensas coisas, sei que vou trabalhar meses para preparar uma exposição que às vezes só dura um dia... E que vai ser difícil encontrar espaços diferentes para cada exposição. Esse é o próximo obstáculo a superar, explicar às pessoas que vamos ter sempre espaços diferentes, consoante o artista que temos e as necessidades do projecto.”

“Eu cheguei à conclusão que, quando és criativo, estás sempre a trabalhar, mesmo a dormir, o teu cérebro não para, estás sempre a criar. E agora, depois do Tattoo You, que foi muito exaustivo para mim, pensei que tenho de ter hobbies, como as outras pessoas. Voltar a fotografar é uma coisa que quero fazer e já comecei a pensar numa forma de o fazer, mais como hobby, para me divertir. Acho que é muito importante fazeres coisas que gostas e que te divertem. Também quero muito viajar este ano. Preciso de ver mais do Mundo, é super importante. Acho que nós já temos uma cultura diferente, mais acessível, mas viajar ajuda muito. As minhas referências são muito diversificadas, e uma das coisas mais importantes é viajar. Eu aqui vejo as coisas através do computador. É bom, mas não é a mesma coisa, não estás lá e eu sinto falta disso. E não é só para ir ver mais exposições, porque às vezes vais simplesmente a andar na rua e vês qualquer coisa que te dá uma ideia para um nome de uma exposição, por exemplo. E dado que eu vou absorver referências a coisas tão diversificadas, essa é uma das coisas que eu preciso mesmo de fazer este ano. Não posso descurar essa parte e não posso continuar a adiar. As revistas e a Internet não bastam, é algo que preciso mesmo, até para conhecer pessoas diferentes, saber como é que comem, como é que vivem, ver outras realidades. Esse é um dos objectivos e, claro, conhecer mais artistas e ter mais encontros felizes.”

“Tenho imensa sorte porque a minha vida, felizmente, tem sido recheada de encontros felizes. Não todos, mas muitos dos artistas que tenho conhecido e com quem tenho trabalhado, tornaram-se mesmo meus amigos e isso é óptimo.”

“Os artistas são pessoas muito sensíveis. Sempre ambicionei estar inserida no mundo criativo, com toda esta aura,  mas também tem um lado negro muito complicado... Eu acredito que o caos é necessário para a criação e há, de facto, um lado muito negro na parte criativa. É uma coisa muito boa estar rodeada de pessoas muito sensíveis, eu própria também tenho uma sensibilidade diferente. E é muito bom estar rodeada de pessoas assim, há momentos fabulosos. É uma das coisas que me dá mais alento, são estes encontros, estas descobertas. Muitas vezes trabalho essa parte de “mentoring”, tento perceber o que é que anda ali e o que é que esse artista pode usar para criar alguma coisa. No caso do Kid Richards, o livro dele foi uma cura, foi um processo de cura dele próprio e foi isso que me interessou. E foi por isso que abracei o projecto dele e já o lancei como Tara Gallery, embora a galeria ainda estive numa fase muito inicial. Ao lidar com estes artistas, percebi que eles sentem falta dessa entrega com as pessoas com quem trabalham, desse apoio emocional, dessa sensibilidade...”

“Tenho uma exposição a acontecer no próximo mês, vai ser uma exposição engraçada e que me vai dar muito trabalho. Sei que o futuro é trabalhar no sentido da curadoria, tentar encontrar aqui um equilíbrio profissional, perceber de que forma é que eu quero fazer as coisas e conhecer ainda mais artistas, para perceber que projectos é que podemos fazer juntos. Eu acredito na consciência colectiva, acho que essa consciência leva-nos muito mais longe. Quando estou muitas temporadas a trabalhar sozinha, às vezes é penoso para mim, porque acredito que com mais pessoas a contribuírem, evoluímos mais rápido. E o ideal é falharmos o mais rápido possível, para conseguirmos melhorar e avançar. Mas a ideia é continuar a trabalhar e fazer com que a Tara comece a dar que falar.”

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