Mafalda Patrício em Privado

Mafalda Patrício em Privado

Aconteceu assim: Mafalda pegou num pente de madeira, abandonado pela nossa produção sobre a mesa da sala, e muito pouco discernível no universo de livros e revistas sobre Moda, entrelaçou-o no cabelo e deitou por terra as nossas questões sobre que penteado usar para o último coordenado. Mafalda Patrício é assim. Gosta especialmente de transformar imagens, seja usando peças de grandes marcas ou achados com pouco valor comercial. Também a sua imagem, embora claramente à altura de desafios das melhores “squads” do mundo da Moda, permanece pouco comercial. Voltámos a falar com a manequim, influencer e stylist em sua casa, numa zona típica de Lisboa.

 

Fotografia: Maria Rita

Produção: Margarida Marinho e Mafalda Debonnaire

Cabelos e Maquilhagem: Lea Louro 

Texto: Rita Duarte Silva

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As Inspirações

Há exactamente um ano atrás tínhamos falado com ela no Guincho. Desde aí, muito mudou na vida de Mafalda Patrício. Este Novembro, sentámo-nos na sua sala, no seu primeiro espaço próprio. Um espaço físico cheio de luz, numa estética muito mid-century modern. Um espaço mental que fez uma grande diferença na sua vida, como ouvimos no “foi um grande passo!” que repete. Talvez porque adore receber (num day-off invernoso, é em sua casa que se reúne o grupo das suas amigas), talvez porque qualquer miúda da sua idade costuma delirar com a independência num grau mais absoluto, aliada à possibilidade de derramar o seu imaginário do que constituí um espaço ideal nas superfícies e paredes de uma nova casa.

Ainda mais uma como Mafalda, que começou por estudar Arquitectura e mudou para Design com a intenção de criar interiores, com a firme crença de que a sua vida profissional seguiria esse rumo. Foi aí que a deixámos, há um ano atrás. A criação de conteúdos de Moda no Instagram pôs um ponto de interrogação nessa ideia e, desde aí, Mafalda tem construído uma carreira inesperada e, ao mesmo tempo, muito pessoal.

Sempre adorei Moda, só que nunca me passou pela cabeça tentar.

Os convites foram enchendo a sua caixa de correio electrónico, os seguidores a aumentarem e, de repente, Mafalda estava no mesmo lote de influencers que Leandra Medine, fundadora do site Man Repeller (2 milhões de seguidores no Instagram, se quisermos traçar um perfil em números). Perguntamos-lhe o que se sente. "É incrível, mesmo! E ela segue-me" , conta num misto de satisfação, surpresa e constrangimento. Leandra é exactamente um dos seus ícones de estilo, juntamente com Alexa Chung, Blanca Miró, Camille Charrière e, claro, as eternas Kate Moss e Jane Birkin.

Perguntamos se as admira apenas ou se sente que influenciam realmente o seu estilo. “Acho muito difícil tudo o que vemos, que é tanto, não influenciar a nossa maneira de vestir, de ser, de estar. Hoje em dia, com todo o mundo que há online, há muita informação e conteúdo para explorar”. Se não soubéssemos nada sobre ela, difícil também seria adivinhar de onde vem. Escandinava, francesa, espanhola? O seu espaço na rede parece pertencer a um lugar não identificado.

Continuamos o nosso inquérito, em busca de definir um pouco melhor a estética em que se move.

Quem me passou o interesse pela Moda foi a minha avó, mãe do meu pai. Passava imenso tempo com ela, antes e depois das aulas, e íamos aos centros comerciais todos. A minha avó é que me mostrava as colecções todas, o que se ia usar, o que era giro. Conhecia tudo, tudo. Eu definiria o meu estilo como divertido. Tens de saber brincar com aquilo que tens. Adoro ir buscar peças que não têm nada a ver e dizer ‘não, isto fica bem com isto, isto dá para usar’. Isso, para mim, é o mais importante. Todos os dias me visto de maneira diferente: tanto me vês num dia com sabrinas, saia e um casaquinho, como no dia seguinte de calças de fato de treino e ténis.

Reparamos no móvel expositor recheado de óculos de sol coloridos no seu quarto, voltamos atrás muitas vezes para fazer zoom no gancho que usou neste post ou naquele e, como tal, identificamos estes dois elementos como constantes dignas de nota no mapa de estilo de Mafalda Patrício.

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O Trabalho

É manequim há alguns anos (graças a isto é uma cara conhecida em países improváveis, como a Argentina), e isso reflecte-se na altura de a fotografarmos: é uma dança fácil entre ela e a equipa. Quase não damos por algumas das suas ideias até se materializarem com naturalidade. Foi o caso do penteado improvisado que imaginou para o último coordenado. “A minha bisavó às vezes usava uns travessões assim no cabelo. Vou já comprar um a seguir”, explicou, enquanto encaixava o pente de madeira entre o cabelo louro.

Tem aprendido bastante neste caminho que escolheu / a escolheu a ela. “Não sabia o que era um sérum”, ri-se. “E é a melhor coisa do mundo!” A sua disposição é uma espécie de sol de Inverno, embora Mafalda seja claramente uma pessoa de Verão: é leve e descontraída e, ao mesmo tempo, há nela uma espécie de timidez. Comentamos que nunca a vimos falar no seu Instagram.

“E acho que nunca vão ver. É a minha maneira de ser, nunca gostei de falar para as câmaras. Nunca fiz isso antes de ter 50 mil seguidores, não é agora que vou começar. Mas claro que percebo que as pessoas podem sentir falta de ver como é a minha maneira de ser, de falar."

O Instagram continua a ser muito um reflexo da sua vida normal: as stories com áudio que partilha são de jantares e saídas com as amigas, cenas com pouco filtro que são intervaladas por conteúdos de Design e Moda. Mesmo as legendas das fotografias que envia para o mundo são assim: “Emojis, frases muito simples, isso sou eu”. É definitivamente uma pessoa visual. Falamos de designers:

“Aquela colecção, do Christopher Bailey para a Burberry, com os arcos-íris, está incrível.”

Também Mafalda Patrício chegou a uma fase de uma criação diferente na sua vida profissional. “O styling foi uma coisa que sempre quis experimentar, mas nunca soube como começar. Não sabia como isto iria surgir.” Cautelosamente, acrescenta: “Vamos ver, mas acho que está a correr bem”. Os seus clientes incluem marcas, uma fadista portuguesa e particulares.

“O meu objectivo é crescer ainda mais como stylist, arranjar mais marcas, talvez editoriais para uma revista de Moda. Um projecto meu: gostava de ter uma marca, e acho que um dia vou ter. Mas não vai ser agora porque de momento há muitas e, para se fazer, também tem de ser bem feito. Dentro de cinco anos gostava de ter isso.”

Mafalda tem agora 25 e, sobre tudo o que mudou de há cerca de três voltas ao Sol atrás, diz, num tom que ainda guarda alguma perplexidade: “Nunca na vida pensei! Isto era uma brincadeira no princípio”.

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