Dia Mundial da Poesia com Sónia Balacó

Grace

Dia Mundial da Poesia com Sónia Balacó

por21 Mar 2017 lmanifesto

A 21 de Março, logo após a chegada da Primavera, assinala-se o Dia Mundial da Poesia, celebrado, geralmente, com diversos eventos em torno da data, como concertos, exposições e leituras de poemas. Entrevistámos a actriz, e também poetisa, Sónia Balacó, para nos falar um pouco sobre esta data e a sua íntima relação não só com a poesia, mas com a Arte, no geral.

 

Texto: Filipa Leal

Fotografia: Soraia do Carmo

“Para dizer a verdade, a poesia é das coisas que faço há mais tempo. Assim que aprendi a escrever, que foi antes de entrar para a escola primária, comecei a escrever poemas – coisas muito infantis, claro. Mas a verdade é que é uma relação muito antiga e um pouco inexplicável, não houve uma exactamente aproximação, foi algo que surgiu naturalmente. Sinto é que é mesmo parte de mim. Como leitora, só me lembro de começar a ler poesia mesmo “adulta” a partir dos 12 anos, portanto, a poesia como escritora chegou antes da poesia como leitora.”

Com um percurso profissional focado maioritariamente na representação, Sónia lançou, em 2015, o seu primeiro livro. Constelação é um livro de “poesia construída em fragmentos, pensamentos, aforismos, numa intencionalidade experimental, desobediente de géneros e fronteiras”. A ideia surgiu em 2014, mas a poesia já fazia parte da sua vida desde sempre.

“Em 2014 tomei a decisão de criar um livro, porque escrevo poesia desde sempre e percebi que só tinha de ir buscar tudo, seleccionar e compilar. O processo passou por ir buscar, primeiro, aquilo que eu acho que tem qualidade, e depois perceber, dentro dessa selecção, o que é que pertence a um todo, porque há coisas que não se adequam. E depois descobrir sobre o que era aquele livro... Passei um ano a descobrir o diamante em cada texto e a lapidá-los, porque alguns não estavam acabados. Acabou por ser metade-metade: metade são textos que eu já tinha e, com o processo de estar a trabalhar no livro, os outros foram chegando... O poema mais antigo foi escrito quando tinha 18 anos.”

“Sou uma amante intensa da poesia. Há sempre imensos eventos relacionados com o Dia da Poesia, é um dia de encontro em torno da palavra e acho isso engraçado, mas, para mim, o Dia da Poesia é todos os dias. Até porque eu não acho que o poema, ou as obras de arte, sejam só as coisas que nós fazemos. A verdadeira obra de arte, ou o verdadeiro poema, é como tu cruzas a vida, quem tu és. É a tua biografia que vai falar e eu tento viver a pensar nisso. Na verdade, o que eu sinto é um grande chamamento pela Arte, e eu respondo!”

“A representação é aquilo por que sou mais conhecida, publicamente, e é também uma experiência artística incrível, no sentido em que é como se te fossem dadas várias vidas a viver... Eu acho que se trabalha muito a empatia com os outros, através do trabalho como actor, porque aprendes a conseguir colocar-te nos pés de muita gente. Depois, para além disso, também escrevo outras coisas e tenho mais vertentes. Gostava de escrever para cinema e, eventualmente, realizar... Também escrevo para teatro, tenho uma companhia de teatro e somos nós que escrevemos todos os textos. E eu acho que, cada vez mais, as áreas fundem-se, as artes já não são estanques, tudo se cruza e vai beber a vários sítios, e eu sinto que também me encontro muito nas áreas da multidisciplinaridade, em que posso dar uso a várias paixões pela arte ao mesmo tempo.”

“Escrevo diariamente, mas não me imponho isso. Há pessoas que acordam e às 8h da manhã estão a escrever. Comigo não funciona assim. Acho que também depende do que estás a escrever. Por exemplo, com a poesia, e comigo, não funciona dessa forma, porque eu não imponho o poema, eu recebo o poema. E eu acredito que, na verdade, eu sou apenas um intermediário para um Universo qualquer de ideias, que está noutro plano da realidade. E acho que o que os artistas fazem é receber essa “informação” e traduzi-la para qualquer coisa palpável.”

“Acho que tem muito mais a ver com o sítio mental onde te encontras, e menos com o sítio físico. Ando sempre com um caderno e pode acontecer estar a fazer uma coisa qualquer e ter uma ideia, mas é importante alimentar isso. Acontece-me muitas vezes ir dormir, apagar a luz, e quando já estou naquele momento em que vou adormecer, tenho uma ideia. Acho que isso acontece porque, no momento de adormecer, nós vamos para um sítio em que desligamos a mente prática, desligamos o imediato e as coisas que temos para fazer, e parece que vamos para o “nada”, para um lugar onde estás apenas contigo própria, e, quando chegas aí, encontras o Universo das ideias. O exercício é viver nesse sítio, ou pelo menos é o que eu sinto que preciso de fazer - não deixar que o dia-a-dia se apodere de tudo. Estar aqui, na vida prática, mas habitar o meu mundo interno a cada momento.”

“Uma coisa que tenho vindo a descobrir recentemente é uma liberdade em relação à folha, que eu acho que não tinha antes. Colocam-te imensas ideias sobre o que se deve fazer no papel e o que é que tu sabes fazer no papel. E, de repente, se tu deixares a mão livre – que é uma ideia que me faz pensar imediatamente na Ana Hatherly, na ideia de a mão fazer o que quer fazer, quase sem interferência do cérebro – isso pode ajudar a libertar muita coisa.”

“A minha relação com a Natureza é super intensa e fulcral para a minha existência, sou muito mais Eu e muito mais feliz em contacto com a Natureza, seja no mar, num parque, na selva... Há qualquer coisa de primordial, parece que nos leva mais para nós, talvez. Eu acho que o exercício é sempre parar a mente e escutar, seja a criança interior, ou o coração, ou o que lhe quiseres chamar. E a natureza, sem dúvida alguma, ajuda a fazer isso. Não é a minha única ferramenta, porque quando se mora em Lisboa, fica difícil, mas sim, é óbvio que é uma relação que potencia esse despertar interno.”

“Dentro do tema da natureza e da poesia, podemos falar de Sophia de Mello Breyner. Quando eu era miúda não gostava muito de Sophia, não tinha a maturidade para entender do que é que ela estava a falar. Não tinha sensiblidade para compreender que ela estava a falar dessa dimensão transcendental da natureza, e agora é uma das minhas poetas favoritas. Na altura, gostava mais dos modernistas e de Fernando Pessoa. Tenho uma relação muito intensa com esse senhor, costumo dizer que foi o meu primeiro amor. Se há algum mestre, para mim, é ele. Neste momento, aquilo que me faz mais sentido é A Mensagem. É um livro incrível e com uma dimensão mística tremenda, e isso vai um pouco de encontro àquilo em que eu também acredito.”

“Se existe algum mestre é o Pessoa, pelo génio, pela ligação ao outro lado das coisas, a uma ideia de divino, ao misticismo, e pelo não-medo. Os modernistas foram incríveis, eram génios e não se retraíram em nada. É incrível pensar que oito pessoas fizeram uma revolução na literatura, com uma revista que teve apenas dois números publicados. É incrível o tamanho que a mão de uma pessoa pode ter e nós não podemos castrar esse poder.”

“Posso destacar também Cesariny, Paulo Leminski, todo o grupo do PO.EX português (a poesia experimental portuguesa), ou seja, Ana Hatherly, Ernesto M. de Melo e Castro, Salette Tavares, Alberto Pimenta, os poetas concretos brasileiros, como Haroldo de Campos e Augusto de Campos... A crescer, também, o Mário Sá Carneiro e aquela relação de amizade tão bonita entre ele e o Pessoa, uma amizade através da poesia. E o Almada Negreiros.”

“O próximo livro está a caminho, estou a trabalhar nisso... Há um livro de poesia a ser escrito, mas não é a única coisa. Há muitos projectos. Estar vivo é uma coisa incrível, e fazer o que tens para fazer é celebrar isso. Não tenho medo nenhum, nem de errar, nem do julgamento das pessoas, tenho só vontade de fazer e de fazer o que estou aqui para fazer. Acho que devemos viver sempre assim, tentando manter a criança interior acordada e feliz, com essa alegria por estarmos vivos, sem medo do julgamento alheio porque a vida é curta demais para a colocarmos nas mãos dos outros.”

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