BACKSTAGE: Pedro Pedro

Concrete Jungle

BACKSTAGE: Pedro Pedro

por29 Mar 2017 lmanifesto

Estivemos na 40ª edição do Portugal Fashion, que arrancou em Lisboa, onde acompanhámos a azáfama dos bastidores de Pedro Pedro, o criador que inaugurou a passerelle do evento, na passada quarta-feira, dia 22 de Março.

 

 

Texto: Filipa Leal

Fotografia: Soraia do Carmo

O backstage ainda se encontrava calmo quando chegámos à Coordoaria Nacional, a algumas horas do início dos desfiles. O calendário do evento anunciava Pedro Pedro, seguido de Alexandra Moura, Alves Gonçalves e TM Collection by Teresa Martins. Aproveitámos os momentos que antecediam o fitting para inspeccionar ao detalhe a nova colecção de Pedro Pedro, para a próxima estação Outono-Inverno.

Com uma marcante inspiração piscatória, ficou claro que a nova colecção materializava um corte com o romantismo e delicadeza das colecções passadas. Entre galochas de borracha, peças estruturadas e materiais tecnológicos, o estilo evidenciava-se mais duro e de carácter protector.

“O tema desta colecção está muito ligado ao Mar, por isso a colecção tem muitos elementos de pesca, de rodeza, de protecção. Na realidade, tudo começou com a parceria com a Dom, uma fábrica especializada em botas de pesca e roupa de trabalho piscatório; a partir daí, achei que fazia sentido começar a explorar tecidos mais técnicos. Costumo ser “o rapaz das lãs”, mas, nesta colecção, as malhas foram um pouco substituídas por materiais técnicos, com características de resistência à agua, materiais encerados, materiais com películas protectoras... E mesmo o styling da colecção foi todo feito por camadas, para dar um ar também de protecção. Tudo isto vem um bocadinho da inspiração no trabalho dos pescadores.”

As manequins foram chegando aos poucos para as provas finais, dando corpo aos coordenados e materializando a atitude tough idealizada pelo criador. As botas de borracha e os casacos pesados, contrastavam com saias plissadas e peças transparentes, num equilíbrio perfeito entre o estilo feminino e masculino, em camadas que conjugavam delicadeza, atitude e protecção.

“Há quatro estações que as minhas colecções têm sido muito românticas, muito fluídas; desta vez, quis fazer uma coisa mais dura, mais “tough”, e continuar um pouco aquilo que tenho feito, que é experimentar coisas novas. Há muito do universo masculino nos casacos, por exemplo, e cada vez há mais essa mistura, o que tem graça, porque às vezes também dou por mim a experimentar casacos femininos e a pensar que se calhar também usaria aquela peça. Acho que o género está a começar a misturar-se mais e ainda bem.”

“Não é um corte total com o passado, mas é um novo caminho. Quando imagino a história da colecção, penso sempre numa mulher como protagonista e é sempre bonito ver alguma feminilidade. Continuam a existir peças transparentes e fluídas, mas são peças grandes, com um cair maior e uma silhueta oversize. Mas as cinturas são nas cinturas e também há outros detalhes mais delicados, acho que isso ajuda a manter uma certa feminilidade. É bonito brincar um bocadinho com as duas coisas, tentando exacerbar o feminino e masculino, simultaneamente; é uma espécie de luta entre os dois lados.”

Embora os novos materiais tenham roubado algum protagonismo às lãs e a outros tecidos a que já o designer já nos tinha habituado, não pudemos deixar de reparar nas malhas, que, embora em minoria, continuam incrivelmente trabalhadas – ou não fosse Pedro Pedro conhecido como “o rapaz das lãs”. A desconstrução e multi-funcionalidade dos camisolões de malha tricotada, revela uma continuidade face às colecções passadas, em que  o criador já tinha iniciado alguma experimentação com golas que podiam ser usadas de diversas formas.

“Tenho peças em tricot que podem ser vestidas consoante o mood da pessoa, o que é engraçado. Se, por um lado, temos acesso a tanta informação, o que homogeniza tudo, porque estamos todos a beber da mesma fonte, por outro lado, acho graça quando há uma tentativa de fazer uma coisa não totalmente individual, no sentido de imagem, mas que pode ser interactiva. Já tinha começado esta experimentação no Verão, com umas camisolas com golas estranhas, que se podiam vestir de várias maneiras, e agora tentei dar continuação na colecção de Inverno, com peças com cinco mangas, que apertam à cintura ou que podem ser vestidas de maneiras diferentes. Os casacos também podem ser usados normalmente, ou de outras formas, à tira-colo, ou como mochila. A colecção é muito rica em termos de styling, e, por vezes, até é um bocadinho levada ao extremo nesse sentido, porque, na realidade, depois as peças acabam por ser muito versáteis, vestíveis, usáveis.”

A paleta cromática afastou-se dos tons neutros de outrora, para dar lugar a cores mais fortes, como o vermelho e o azul royal, que marcaram esta colecção, juntamente com o verde garrafa. Paralelamente a estes tons, o preto e o branco pontuaram toda a colecção, ainda que o designer tenha acabado por colorir e preencher algumas das peças brancas, com pinturas a marcador e bordados em versão destroyed.

“Com 14 anos, já estava numa escola particular de pintura a óleo, portanto venho das árear do Desenho, da Pintura e das Belas Artes. E ver uma coisa branca é como olhar para uma tela, parece que está a pedir-me para fazer uma intervenção. Quando vi a colecção a ficar pronta, com as cores muito vivas e quase de sinalética, isso fez-me automaticamente pensar em marcadores. Achei que as meias eram muito brancas, e apeteceu-me pintá-las, foram todas pintadas por mim. E, como tive este período de tempo entre o desfile de Milão e o Portugal Fashion, apeteceu-me fazer um “upgrade”, e as meias passaram, então, a ter bordados. Têm um ar muito desfeito, com fios soltos, e achei que podia ser interessante partir dessa ideia e fazer uma peça de roupa, por isso acabei por criar uma peça que é a continuidade do conceito das meias.”

“A colecção é um bocadinho mais “tough” do que o normal e achei que as pinturas na roupa também podiam transmitir isso. Em termos de inspiração, é um pouco de rock e street wear.”

Apesar das peças de carácter protector, fruto da inspiração no mar e na pesca, reforçadas pelos materiais tecnológicos, encerados e impermeáveis, o estilo urbano da colecção é inegável. Ao contemplarmos, finalmente, o desfilar das manequins pela longa passerelle, as ideias e inspirações de Pedro Pedro ganham forma -  e, por vezes, bastante volume. Os looks fortes e modernos são marcados pela riqueza de um styling que se estende desde os básicos (por vezes, com alguns upgrades) a peças mais conceptuais, com cortes assimétricos, formas exageradas e acabamentos desfeitos.

“Nos desfiles, tento contar uma história e a música é um componente muito importante, assim como a atitude das manequins. Normalmente, escolho músicas bastante suaves, quase música ambiente, mas desta vez fui por outro caminho, mais techno, mais duro, mais presente, que ecoa e dá o mote para uma atitude mais forte também. Eu queria mesmo cortar um pouco com o passado, nesse aspecto. Para além do objectivo ser sempre surpreender os outros, também tem graça conseguir surpreender-me a mim próprio e sair da minha zona de conforto. Tento sempre fazer isso, seja através da história, dos materiais, fazer coisas que nunca fiz antes... E desta vez foi isso, tentar romper com as colecções anteriores através da atitude (e dos materiais).”

“Este desfile será diferente do de Milão. Na altura, havia coisas que não estavam prontas - às vezes é tudo uma questão de timing. Mas também há o tempo de afastamento, que é bom para conseguir perceber o que funcionou e o que não funcionou. E isso aconteceu, há peças que já existiam e que foram vestidas de outra forma para este desfile. Mas, normalmente, o que acontece é que, se eu não tiver um prazo, a minha cabeça não para. Quando as coisas estão a ser feitas, eu entusiasmo-me e dali parto para outros caminhos, outras derivações. Se eu apresentasse esta colecção daqui a um mês, já seria totalmente diferente, porque eu não ia parar de criar e de desenvolver ideias. Tenho mesmo de ter um prazo para fechar tudo, porque quanto mais tempo tiver, mais coisas vou fazer, mais peças, mais misturas... Em Milão, houve peças que ficaram para trás, porque não consegui que a produção acompanhasse os prazos. Aqui, ganhei mais peças e ganhei a maturidade de já ter visto o primeiro desfile, e poder pensar como é que poderia fazer diferente e melhorar.”

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