Catarina Macedo Ferreira

Catarina Macedo Ferreira

As duas coisas que achava que seria eram pintora e mãe. As duas coisas ainda não foram compatíveis mas foi uma combinação da maternidade e da sua criatividade que lhe trouxe os projectos seguintes. É fotógrafa e blogger e, aos 31 anos, cumpriu, mais do que na totalidade, metade do sonho: tem quatro filhos e ganhou este ano algum do controlo sobre o seu tempo que tanto desejava -  e que foi a razão principal que a levou a fundar um negócio próprio. Falámos com a mente e o coração por detrás do Ties na altura perfeita: uma boa fase na sua vida e a quadra natalícia, que vê cheia de magia.

 

Fotografia: Cristiana Morais

Styling: Rita Duarte Silva e Rita Aguiar

Texto: Rita Duarte Silva

Maquilhagem e Cabelo: Lea Louro 

Ler Intro

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Natividade

Pela porta da frente deste apartamento, em que os espaços sociais foram abertos para favorecer a vida em família dos seus seis habitantes, vão entrando, uns mais calmos, outros em euforia, quatro miúdos abaixo dos 10 anos. São Leonor, Xavier, Sebastião e Graça e fizeram desta miúda luminosa uma mãe, se é que já não o era em certa medida antes. Sempre se lembra de existir em trindade, com uma irmã mais velha e uma mais nova muito próximas em idade. Quando, dez anos mais tarde, nasceu a benjamim, Catarina conta que este bebé acabou por ser a sua primeira filha: "Cortava-lhe as unhas, dava-lhe banho. Discutíamos todas para ver com quem ia dormir". A verdade é que sempre foi maternal.

Adorava bebés! A Leonor também tem isso, a minha mãe também e já a minha avó era assim. Desde os meus 5 ou 6 anos que, sempre que nascia um bebé, eu estava na maternidade a mexer nos dedos, a cheirar o bebé, com ar embevecido a olhar para ele.

Os laços com a família, quer a de origem, quer a que formou conscientemente, são indissociáveis da personalidade de Catarina, na qual distinguimos um inconformismo que não prejudica uma natureza doce. Aos 22 anos, anunciou que ia casar com o namorado que tinha desde os 17. As famílias de ambos desvalorizaram o prazo de conclusão daquela intenção: "Diziam-nos que sim, íamos casar, mas não era agora". Conta que, por terem tido uma relação de amizade primeiro, e terem decidido voltar a namorar depois de uma pausa, não se deixaram levar por opiniões exteriores ao casal.

Não é que tivéssemos pressa, mas por que haveríamos de esperar por alguma coisa quando já sabíamos que íamos casar?

A primeira filha trouxe a Catarina uma imensa alegria mas também o confronto com uma nova realidade um pouco inóspita. Tinha escolhido um caminho pouco percorrido e os efeitos não se esquivaram a aparecer. As amigas, numa fase de vida completamente diferente, pareciam mover-se na órbita de planetas bem distintos do seu. "Ia estando com elas mas não podia ligar a uma amiga a dizer 'A Leonor não dormiu à noite, o que é que eu faço?' Ninguém me saberia responder". 

A maternidade pôs também desafios a uma auto-estima que era saudável mas tímida. Mais uma vez por ser a primeira, e pelo estado de enamoramento com o primeiro bebé que aí vinha e tudo o que com ele se relacionava, explica que não se tinha sequer apercebido de como tinha mudado o seu corpo. "Lembro-me de chorar de choque porque, grávida, só via a barriga, não sabia sequer como estava". A balança, que entretanto excluiu do inventário de sua casa, chegou a marcar 90kgs entre gravidezes. O excesso de peso e um afastamento dos músculos abdominais iam-lhe progressivamente retirando mais e mais qualidade de vida à medida que lhe impunham dores quando pegava nos filhos ao colo, a impediam de praticar a atividade física que tanto ama, e limitavam a sua vida social.

Mais de um ano entre dietas, a abdominoplastia de que sempre falou abertamente no blog, e a recuperação feita de exercício físico e tratamentos, a juntar às dinâmicas de gerir um negócio, uma família de quatro filhos e uma mudança de casa, e o corpo e a mente de Catarina ressentiram-se. Teve de ver tudo a uma nova luz, depois de uma paragem forçada nos treinos e a toma obrigatória de corticóides terem tirado o tapete a grande parte do seu esforço. 

Era muito importante para mim voltar a ter um corpo em que me sentisse mulher. Mas ganhei perspectiva e em primeiro lugar está a estabilidade mental. Decidi não fazer mais tratamentos de estética. Quero treinar e comer de forma saudável porque me faz bem. Comecei a focar-me no que sou, no que quero ser e no que sempre fui.

Comentamos que os seus posts trazem sempre uma aura de relativização das dificuldades e de ajuste às circunstâncias da vida. Responde que, especialmente depois deste ano de esforço e mudança, decidiu definir-se pelo positivo e não pelo negativo. "Não é nada difícil encontrar coisas más se as procurarmos. Por isso, quero ter este compromisso comigo própria de não me queixar mais." E não tem medo de que pareça tudo demasiado fácil? Tem, tal como tem consciência de que o que é publicado afecta quem lê, mesmo que seja a experiência e a opinião de uma só pessoa, pois deste lado dos ecrãs há um universo infinito de circunstâncias. 

Uma das coisas que mais me chateia é dizerem que sou um exemplo para as mães. Não sou. Também tive as minhas referências mas não podemos endeusar as pessoas.

É nitidamente uma mãe carinhosa mas faz questão de não cair em demasiados facilitismos. Se semanalmente leva os filhos mais velhos a almoçar em separado, e dedica uma tarde apenas aos mais novos, por saber quão difícil é ter de dividir os pais quando se tem muitos irmãos, também não escuda os miúdos das pequenas dificuldades do dia-a-dia e afirma que só lhes pode fazer bem se, ao andarem de bicicleta, como habitualmente se deslocam já que Catarina não tem carta de condução, apanharem um pouco de chuva. 

A mesma lógica é aplicável à quadra em que nos encontramos. Catarina, que recorda com a maior ternura a avó paterna que levava as crianças para um quarto separado depois da ceia de dia 24, tocando sininhos e anunciando a vinda do Pai Natal, ou o almoço de dia 25 com todos os muitos primos na casa apalaçada dos avós maternos, onde todos esperavam pela sua vez e iam admirando os presentes do resto da família, confessa que faz questão de dar aos filhos um Natal o mais mágico possível mas que também tenta "não lhes dar exactamente o que pediram". 

Como o marido está muitas vezes fora em trabalho nestes dias, inventam um Natal para os miúdos na data possível mais próxima da realidade, de forma a poderem sempre passar esta época juntos. Catarina continua a mesma: se em miúda, passava a manhã a tentar que os pais, cansados da missa do Galo, se levantassem para abrir os presentes, agora que é mãe, o entusiasmo maior continua a ser o dela. Desejosa de os ver a todos de pijamas a abrirem os presentes, lá se contém para oferecer apenas um a cada um, pois esta é realmente uma época que adora, mas não quer mimá-los demasiado.

Uma das coisas mais bonitas que a Leonor fez foi, quando podia receber um presente para ela, escolher, em vez disso, um para o irmão.

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Criatividade

Se ser fotógrafa nunca lhe teria passado pela cabeça, ser blogger teria sido naturalmente inconcebível. Em miúda, só queria ser mãe e pintora. As duas coisas acabaram por estar sempre entrelaçadas, para o bem e para o mal, e foram estas duas últimas facetas que abriram a porta à existência das duas primeiras. Vai falando sobre o curso em Pintura na Faculdade de Belas-Artes e confessa que se tornou um pouco rebelde, inconformada com as perspectivas que lhe apresentavam, nessa fase. Os temas que escolhia incidiam muitas vezes sobre a maternidade e os laços afectivos entre famílias e os professores começaram a perceber que não era por acaso. Quando lhe perguntaram se ser mãe era uma vontade que guardava, a resposta era muito clara na mente de Catarina: era um desejo enorme. "Olha que isso não é compatível...", foram-na avisando. Lembra-se de pensar que não era verdade, não podia ser. Mas reconhece que, ao longo da vida, foi-se apercebendo de que essa afirmação tinha a sua razão de ser.

Quando comecei a ter filhos, o que a pintura exigia de mim era de tal forma intenso, em tempo e em cabeça, que eu não conseguia fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Foi um choque confrontar-me com isso. Há mães que conseguem e admiro-as imenso, mas é realmente difícil.

Ainda assim, continuou a percorrer um caminho muito seu, como aliás reparamos que tem feito em todas as áreas que importam na vida. No último ano do curso, já grávida do segundo filho, decidiu que o último semestre ia ser o que ela quisesse. Alugou um atelier e fez todo o trabalho fora das paredes físicas e mentais da faculdade. Explica que a sua pintura tinha um lado mais conceptual, que caía nas boas-graças dos professores, e outro um pouco mais figurativo, que não apreciavam. Foi a esse lado que se entregou e produziu uma série de quadros sobre a afectividade, a família e a infância, sem nunca mostrar os progressos. Não fez grande caso da nota pouco satisfatória que recebeu, e fez uma exposição. Todos os trabalhos de "Matriarca" foram rapidamente vendidos. Pensou que ia continuar mas a disponibilidade mental que lhe começava a faltar, aliada ao grande isolamento de passar vários dias na companhia apenas de pequenos humanos que ainda não podiam conversar, tornaram a ideia de passar os seus dias sozinha num atelier muito pouco atraente. 

Tive a sorte de aprender a desenhar com a cabeça na Sociedade Nacional de Belas-Artes. O traço está sempre na minha cabeça. É só uma questão de jeitinho com a mão.

E acha que vai voltar a pintar um destes dias. É um desejo grande e que manifesta muitas vezes. Mas sempre que acha que tem uma oportunidade, aparece um novo projecto profissional, dos muitos que o blog lhe tem trazido. O papel e as tintas aguardam a sua vez num quarto ao fundo e Catarina entrega-se a outros interesses. Criou o blog há quase uma década, para não se sentir tão desconectada. Partilhava apenas notícias e fotografias dos miúdos para que os amigos e a família verem, até que começou a ver também outros blogs. Cruzou-se com mães que fotografavam os filhos e outros temas e começou a pensar se poderia experimentar essa disciplina, com a qual tinha tido um breve contacto nos seus estudos. Relembra, entre risos, como, com confiança juvenil , se juntou a um grupo de amigas de amigos que já tinham filhos, no Jardim da Estrela, e lhes tirou algumas fotografias. Publicadas nas redes sociais, tiveram uma boa recepção e levaram a pedidos de sessões. 

Apercebi-me de que muitas das mães que fotografava eram como eu. Não se imaginavam a voltar para o mesmo trabalho terminada a licença de maternidade. Comecei o Ties Project, e entrevistava e fotografava mães de alguma forma criativas que estavam a começar negócios. Era sobre tomarmos as rédeas das nossas vidas, ou pelo menos termos coragem de fazer alguma coisa, e sobre as nossas famílias importarem.

O projeto e a sua criadora cresceram e extinguiu-se. O trabalho como fotógrafa assim o impôs. Nessa área, a equipa cresceu e já voltou a ser apenas Catarina, neste ano em que decidiu abrandar. "Percebi que isto não era uma coisa para continuar a crescer, mas sim para me dar controlo sobre o meu tempo". O blog continuou a crescer e fez dela uma influencer. Como vê a espada de dois gumes que é a exposição? De forma muito mais positiva do que negativa: conta até que já foi uma seguidora que fez com que encontrasse um filho perdido mais rapidamente. Consciente da relação que quem lê estabelece com quem mostra um pouco de si, com toda a interpretação que é feita entre o que se diz e o que se lê, conclui: "Se puder alertar para algumas coisas e se as pessoas sentirem um bocadinho de amor na minha conta, é o melhor". Nota-se nela uma serenidade. Perguntamos-lhe se nos estamos a encontrar numa fase boa.

Consegui, de alguma forma, resolver no último ano tudo o que me trazia ansiedade. Estou numa fase óptima embora seja claro que a vida não é sempre igual. Mas sinto-me mais crescida, mais madura, a saber o que estou a fazer e para quê.

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