Constança Firmino

Constança Firmino

Não se considera uma influencer e não quer trabalhar nesta área a tempo inteiro. Mas seguimos-lhe os passos, também mensuráveis em viagens da Carris, e copiamos-lhe os looks. Gosta de Moda mas ainda gosta mais de Big Data e é nisso que concentra os seus esforços académicos de momento. Constança Firmino é millenial até à medula: não faz questão de jantar fora ou sair à noite muitas vezes, procura comprar de forma sustentável e, pouco a pouco, vai adquirindo as peças que lhe prendem o olhar agora e, especialmente, que acha que vão prender durante algum tempo. No seu armário e sobre os móveis de sua casa, encontramos o trabalho de artistas de várias áreas, muitos deles portugueses, vários desses seus amigos. O nosso ponto de encontro foi aí mesmo, na morada de Lisboa desta conimbricense, o seu reino de plantas, vinis, livros e acessórios geek

 

Fotografia: Soraia Carmo

Produção: Margarida Marinho, Ana Barata e Mafalda Debonnaire

Cabelos e Maquilhagem: Joana Bernardo

Texto: Rita Duarte Silva

 

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Concha

Este ano, Constança quer conhecer o Japão, algo que nos parece meramente lógico ao passearmos os olhos pela sua sala, onde reparamos em objectos diversos que remetem para o universo do anime: um Doraemon trabalhado por Takashi Murakami dentro de uma vitrine, uma varinha das Navegantes da Lua numa prateleira entre os livros. Encostada à parede, está uma serigrafia de Paula Rego. Numa outra ponta da sala, fica uma escultura pequena, uma torção dourada que não passa despercebida: é de Miguel A. Rodrigues, de quem é próxima. Numa estante, uma concha desenhada pela artista plástica Maria Imaginário, outra amiga. "Concha" é exactamente o que lhe chamam os amigos de Lisboa, para onde veio viver há quase uma década.

Adoro Arte. David Hockney, Jeff Koons... Amo o Takashi Murakami, é o meu preferido. Se pudesse, tinha uma escultura incrível dele aqui. Adoro clássicos do Renascimento, de Cubismo não gosto. 

Para quem tem 26 anos, o coleccionismo já vai avançado. Conta que, quando viaja, a sua prioridade são museus. Foi assim que um dia em Los Angeles se transformou numa viagem cultural. E a influência dos pais, de quem é muito próxima, é sublinhada como a mais importante neste e em muitos outros traços da sua personalidade e gostos. Em criança, frequentava muito galerias, já que os seus pais sempre tiveram amigos artistas. Notamos um padrão: hoje em dia, o seu grupo de amigos tem uma forte componente ligada às Artes Plásticas e à Moda. Recorda as férias com tardes em que o céu e o sol brilhantes do Algarve eram muitas vezes substituídas por um tecto por uma muito boa razão: os pais eram amigos dos fundadores do Centro Cultural de São Lourenço e passavam por lá muito tempo a conversar, enquanto Constança brincava por perto. 

Se sobre Artes Plásticas é fácil obter respostas preto no branco, se nos movermos para os campos do Cinema e da Literatura, e até do Design de Moda, o embaraço da escolha instala-se. Temos a certeza de acertarmos num ponto: Constança viveria nos anos 2000 se pudesse, certo? Troca-nos as voltas e responde que é muito difícil para ela escolher uma época. Explica ainda que, mais facilmente se inspira em ideias e contextos de determinada época do que em figuras distinguidas. Como viviam? Como vestiam as pessoas nos filmes dessa altura? Qual a ideia que tinham do futuro? Aponta apenas dois ícones de estilo, Carine Roitfeld e Tilda Swinton, e fá-lo relutantemente.

Acho que absorves o que está à tua volta. Desde que conheço a Maria Imaginário, comecei a usar cores mais alegres e é por influência dela.

Insistimos um pouco: como definiria o seu estilo, se tivesse de fazer um pitch? Responde que lhe é impossível delinear uma resposta e afirma que a sua parte preferida da Moda de momento é que é possível vestir qualquer coisa e estar confortável e que o seu estilo vai mudando. Também aqui os seus pais têm uma influência basal: recorda que, apesar de ser filha de um psiquiatra e de uma psicóloga e de viverem os três em Coimbra, onde não havia uma abertura especialmente grande no modo de vestir, sempre os viu manterem um guarda-roupa discreto, mas livre e criativo. São geralmente da mãe as carteiras que vemos nos seus braços. Mas houve uma excepção recente que é um testemunho ao conhecimento que tem vindo a acumular sobre Design de Moda. Gosta de pesquisar tendências e, portanto, quando viu um estampado antigo num desfile da Dior, fez rapidamente a ligação à saddle bag, carteira favorita de fashionistas reais e imaginárias (v. Carrie Bradshaw) nos anos 2000, e suspeitou que um regresso estaria para breve. Claramente gosta de Moda mas não é obcecada: encomendou-a do Japão e é para lá ir que a vai voltar a devolver ao mercado.

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#HypeBae

Não escreve influencer no campo da profissão se lhe apresentarmos um quiz surpresa e explica-o com o facto de não dedicar a isso a totalidade dos seus esforços profissinais: o seu foco está no mestrado em Big Data e Tendências de Moda. Na verdade, foi o percurso esperado que a levou ao "hobby" que tem hoje: estudou Publicidade e Marketing no IADE e daí saiu rapidamente para uma sucessão de agências de renome. Durante um par de anos, foi community manager e estratega digital, e começou a experimentar o que tinha aprendido na sua conta pessoal de Instagram. Explica que inconscientemente começou a usar o que tinha aprendido nas legendas e nas fotografias que publicava e o que começou como um espaço dirigido aos amigos acabou por ser incluído num artigo que indicava uma lista de contas de Instagram mais cool.

Gosto muito do Instagram porque é um canal onde posso expressar-me de forma muito livre, e porque sinto que posso ajudar pessoas. Isso é aquilo de que eu gosto mesmo, de sentir que posso ajudar miúdas a serem elas próprias e aquilo que querem ser. Sobretudo a terem mais auto-estima, que é uma coisa sobre a qual ainda tem de se falar.

Esta associação, como quase tudo, não vem por acaso. Constança já partilhou com os seus seguidores que sofre de ansiedade e que sofreu bullying quando era mais nova e, como tem muita interacção com quem a vê, aproveita a via de comunicação para passar esta e outras mensagens, como o consumo sustentável. Mas ressalva que ser role model não é uma aspiração e explica que faz de forma genuína aquilo que sente que tem de fazer. Para quem espreita regularmente as suas stories, não é surpreendente o engagement que consegue. Vemo-la em roupas de designers (muitas vezes portugueses) a viajar de autocarro (#rainhadacarris). Tem uma imagem identificável: ligamos o seu nome a nail art über criativa, a hashtags e termos muito millenial e quase sempre irónicos quanto a um certo pretensiosismo (v. significado de flexing no dicionário) e sabemos que tem quase sempre algo para dizer, o que é uma mistura de falar imenso com a sua experiência profissional anterior em gestão de social media.

Quando tinhas 100 seguidores e falavas para os teus amigos, era uma conversa. Acho que o Instagram tem de ser um lugar onde as pessoas têm um diálogo aberto. É preciso seres real. Uma rede social é isso mesmo, social.

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