Inês Patrocínio

Inês Patrocínio

Faz parte de um clã que é muito mais do que aquilo que é visível para os admiradores da beleza, da alegria e da simpatia. Inês Patrocínio vem de uma família de advogados com grande consciência cívica e trabalha na área dos crimes de guerra e contra a Humanidade. Numa tarde em sua casa, falámos sobre causas sociais, família e a leveza e peso das coisas.

 

Fotografia: Cristiana Morais

Styling: Margarida Marinho e Mafalda Debonnaire

Cabelos: Helena Gonçalves

Maquilhagem: Carla Pinho, com produtos Guerlain

Texto: Rita Duarte Silva

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A Família

As estantes da sala neste apartamento luminoso estão cheias de livros sobre Mandela e Churchill. Um pouco acima do nível dos nossos olhos, um volume intitulado Um Homem Livre, do advogado e filantropo Vasco Vieira de Almeida. Começamos a conversa com Inês Patrocínio por aí, explicando que lemos uma longa entrevista de Anabela Mota Ribeiro a este seu avô e confirmamos aquilo de que suspeitávamos quando os seus olhos ganham uma centelha e arredondam de espanto: falar de Inês, falar com Inês, é numa grande medida falar da família que a gerou.

Se alguém perguntasse como é que podia saber mais sobre o meu avô, sobre a família, era essa entrevista que eu lhe dizia para ler.

Naquele dia, tínhamos reparado numa jarra transparente muito simples, onde repousava uma mão-cheia de rosas em tom de salmão. Era uma visão maravilhosamente antiquada num cenário clássico mas contemporâneo. O remetente, comentou com simplicidade, Inês, tinha sido o avô. O motivo? Uma superação profissional. A frequência destes envios? “Sempre que acha que mereci”. Inês apareceu-nos como uma figura delicada mas directa, a um tempo séria e afectuosa. Vamos conversando enquanto os cabelos vão sendo arranjados e, um pouco mais tarde, Inês apercebe-se de que a nossa fotógrafa está fora do seu ângulo de visão a brincar com Alice. Suspira e sorri por ver que a sua filha, de dez meses, estava acompanhada, sem nos ter dado indicação de uma inquietação que fizesse demorar o nosso trabalho. Perguntamos até que ponto a família a influenciou na forma como agora gere o seu casamento, uma filha bebé, uma carreira desafiante. Inês comenta a grande sorte que considera ter, enumerados estes tesouros pessoais, e explica que os laços familiares são muito importantes para si e para as suas irmãs: tudo começa nesse núcleo duas gerações acima.

Os meus avós são o meu casal-referência, pela amizade, pelo respeito, por tudo o que passaram - no 25 de Abril, é uma história espetacular, de filme. Cultivaram sempre uma grande proximidade connosco. É engraçado porque o meu avô pode ser assim um advogado de renome mas depois o grande objetivo da vida dele é manter a família por perto e o programa de sexta-feira dele é ir buscar o bisneto mais velho à escola para um gelado aqui no bairro. A minha avó é o meu maior exemplo quanto à vida pessoal. Tem a capacidade de unir a família, é elegante, feminista à sua maneira e mais culta do que quase toda a gente que eu conheço.

Cresceu no Restelo com as seis irmãs e, em certa medida, a vida continua igual. Os sobrinhos são já muitos mas as seis originais, algumas já com os maridos e filhos, continuam a reunir-se praticamente todos os fins-de-semana, e estão sempre por perto. Inês afirma que as irmãs são as suas amigas de confiança, e reflecte sobre o facto de, sendo tão diferentes, sempre se terem dado muito bem. Perguntamos à nossa interlocutora se, com uma família tão grande e próxima, sempre se tinha imaginado a casar e construir um novo braço da família cedo. Inês, que casou aos 23, explica que nunca teve na sua mente considerações sobre quando daria esse passo. Embora fosse certo que queria dar origem a uma família, conta que, das irmãs, não era, de longe, a mais maternal. Foram circunstâncias pouco habituais que clarificaram o percurso à sua frente.

Conheci o Pedro quando ele se preparava para entrar no seminário, com 12 anos a viver fora pela frente. Ia ser padre, tinha tomado essa decisão, contado aos pais, aos amigos. De repente, apaixonámo-nos e tiraram-nos o tapete debaixo dos pés. Planos pela janela fora e o Pedro teve de reflectir imenso. Quando ficámos juntos, foi um pouco 'this is it'. Namorámos três anos e sabíamos que a nossa família era aquela. Foi um abanão mas eu sabia que aquilo era uma coisa especial, quase transcendente.

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As Causas

Inês olha em volta e lamenta não ter ainda pendurado um quadro na sala, uma representação de uma mulher a dar de mamar. É uma das questões que o nascimento de Alice pôs em foco, e "uma luta pessoal", ri-se. Explica que mesmo tendo crescido numa família de mulheres, em que a maior parte das mães amamentou, não tinha muitos conhecimentos sobre as mastites que já teve de superar várias vezes. Quando partilhou a sua experiência num post de Instagram, percebeu que eram muitas as mães que sofriam com este problema e acabavam por desistir do aleitamento materno. O diálogo que se criou em torno deste assunto fez com que idealizasse um projecto que vai procurar apoiar quem quer amamentar e encontra dificuldades como as que Inês encontrou, e que será lançado brevemente.

Diz que não se considera uma empreendedora por natureza mas, de uma forma discreta, vai apoiando causas que lhe são queridas. O contexto familiar e a própria profissão que escolheu facilitam a compreensão desta atenção ao outro. Inês estudou Direito e o seu interesse simultâneo por História levou-a à descoberta do Direito Penal Internacional. Enquanto ainda estudava, foi-se envolvendo nesta área que tanto a atraía. Depois, Nova Iorque: seis meses a trabalhar para o Conselho de Segurança da ONU. Apesar de não destrinçar um futuro fácil na área que a apaixonava em Portugal, voltou. Queria casar e sempre tinha imaginado o seu início de vida aqui, ao pé das suas irmãs.

Afirma que teve sorte. Passou pela Embaixada do Canadá e foi aí que foi convidada para o projecto a que se dedica, numa organização financiada por vários Estados que investiga e preserva para sempre as provas de crimes de guerra e contra a Humanidade em zonas de conflito que incluem actualmente o Iraque, a Síria e o Myanmar. O objectivo de trazer à justiça alguns dos maiores criminosos da nossa era tem, com certeza, uma carga pesadíssima, ponderamos em voz alta. Inês oferece-nos uma perspectiva nova. 

O trabalho é como a vida, há momentos em que estamos entusiasmados e outros em que só nos apetece chorar e dizer "não consigo mais". Foco-me muito no meu pequeno papel dentro da grande máquina. Quem me conhece vê uma notícia e vem-me logo perguntar se estou a trabalhar nisso. Mas não é assim que funciona, para o bem e para o mal. Eu tenho um papel, que é do departamento jurídico e tenho X tarefas para fazer por semana. Ajuda saber que não estou sozinha, que é um trabalho de equipa.

O envolvimento de Inês em questões sociais é aparente se se procurar um pouco - parece-nos que tem tido sempre este interesse ao longo da vida. "Pode dizer-se que sim", ouvimos do outro lado. Perguntamos se costuma participar nos projectos da Fundação VdA, fundada pelo avô, e comentamos a visão abrangente que Vasco Vieira de Almeida teve ao concebê-la. Concorda com um sorriso que mistura entusiasmo e moderação que é raro que uma organização deste tipo se centre em tantas preocupações da vida de hoje em dia, da cidadania à sustentabilidade e ao conhecimento e à ciência. 

Eu não trabalho para a fundação mas, sendo de família, mais cedo ou mais tarde todos passamos pelos projectos e pelos eventos. Tem muito por onde crescer e eu estou aqui para ver. Estamos todos muito contentes.

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