UNLOCK: Tiago Amaro

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UNLOCK: Tiago Amaro

por2 Jan 2017 lmanifesto

Singular é um adjectivo modesto, para descrever o percurso e alma de Tiago Amaro. Designer de formação, músico, cantor, songwriter, estudante de filosofia, escritor e um apaixonado por literatura épica e erudita. Difícil de acreditar, mas efectivamente falamos de uma só pessoa, de um artista na verdadeira acepção da palavra... Daqueles com que dificilmente nos cruzamos, a não ser nos livros de história que devorávamos e que permanecem no nosso imaginário.

 

Fotografia: Soraia do Carmo

Texto: Margarida Marinho

Não nos esbarrámos na rua, é certo, mas sim num dos mais típicos, imaculados e genuínos bairros de Lisboa, em Alfama. 

Depois de alguns lances de escadas de um prédio em pleno processo de remodelação, chegámos ao último andar. Um quarto XS assotado, maravilhoso, improvável  e estrategicamente localizado: de um lado, impera a beleza de uma vista desafogada sobre o Tejo, do outro, emoldurados por uma janela quadrada 60x60, os edifícios de traça antiga que caracterizam este bairro tão pitoresco. 

A primeira casa onde vivi era no cimo desta rua. Nunca tinha vindo a Alfama até ao momento em que vim viver para cá e já não saio deste bairro para praticamente nada. Apaixonei-me. Toda a gente se conhece. Passámos uns pelos outros e cumprimentamo-nos, é impagável.

Os nossos olhos percorrem cada detalhe, e são tantos... Na entrada, o amplificador, o órgão e as guitarras. Tiago apenas destaca Lucille.

É a única guitarra que tem um nome, o mesmo de uma das minhas músicas para os Sangue Negro que fala, precisamente, sobre a relação que tenho com ela. Levo-a comigo para todo o lado mas, na realidade, nunca a uso. Não sei porquê!

Das inúmeras áreas que domina, a música é aquela à qual se dedica com mais afinco e paixão.

A música entrou na vida do Tiago por acaso, como quase tudo o que faz; vai experimentando, aprendendo, gostando e construindo.  Um autodidata que, em cada acorde, transmite doçura e mistério e que, em cada palavra escrita, nos incita a pensar e a transpor as suas dúvidas para a nossa realidade individual.

Por incrível que pareça, tocar guitarra não o relaxa. Sente a reacção contrária ao estímulo que sentimos quando o ouvimos. Já actuar em palco não o deixa minimamente nervoso ou ansioso. 

Estou lá porque quero, o máximo que pode acontecer é tocar uma nota ao lado. Não estamos a decidir a vida de ninguém, não sou político. Mas tocar com outra pessoa para outra pessoa ganha outro significado, se assim não fosse não tinha a mesma vontade de o fazer!

Influências musicais? Várias. Não existe só uma corrente mas uma mistura de diversos territórios sonoros que o inspiram e que lhe permitem chegar a uma sonoridade com a qual se identifica. Quanto às letras de cada música e, como criativo que é, surgem-lhe. 

Às vezes basta uma palavra, uma emoção e tudo começa. 

À medida que vamos conversando e deambulando pelo apartamento de Tiago entendemos a sua forte paixão pela leitura. Torna-se impossível não reparar no lugar cativo que Homero ocupa no centro da sua estante vivida, cheia de histórias e vozes. A Ilíada é um dos seus romances favoritos.  

Todos os anos, com excepção ao ano que passou, vou passar férias a uma ilha Grega e faço questão de visitar a campa onde jaz o corpo de Homero. Ás vezes, levo um livro e passo lá algum tempo a pensar. Para mim é quase como tirar uma foto com alguém que admiramos muito. Sinto que estou mesmo ao pé dele.

Admirador da escola russa, de Tolstoi e Gogol, nas suas viagens de lazer faz questão de conhecer e reconstruir a vida de alguns dos seus escritores favoritos. Na realidade, não queremos todos sentir-nos um pouco mais próximos de quem admiramos? Da  franca e forte ligação com as palavras, resultam dois projectos que ainda não saíram do forno. Tiago está, neste momento, a escrever um livro, um romance que fala sobre o absurdo da existência, sobre a confusão. 

É quase uma tragicomédia. Quando acordo e quando me deito, as personagens perguntam-me para onde devem ir, quem vão conhecer... está a dar-me imenso prazer!

Já entendemos que não se contenta com uma só tarefa e, continuando a falar de palavras, desta vez, acompanhadas por uma melodia, o segundo projecto de Tiago é um solo com 12 músicas. Pela primeira vez está a escrever em Português, num registo totalmente diferente. 

 

Está a correr muito bem, finalmente estou satisfeito com as minhas letras. Surge-me uma primeira frase na cabeça e depois tento desenvolver. Uma delas foi inspirada em algumas das "frases-chave" que Homero vai repetindo ao longo da Ilíada, quase como se de um refrão se tratasse.

Um projecto encarado como algo mais pessoal do que profissional, que nos suscita muita curiosidade e que esperamos conhecer em breve.

© 2017 L Manifesto

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