Directora de arte e fotógrafa, Maria João Andrade é criativa e apaixonada por publicidade. Durante 15 anos, o ritmo frenético das agências fazia parte da sua rotina quotidiana, até ao dia em que o trabalho de escritório deixou de fazer sentido. “Deixar a publicidade é uma grande ideia” rematava o vídeo de despedida que Maria fez, quando decidiu embarcar numa nova viagem, desta vez a solo. Como freelancer, o seu rumo acabou por não se distanciar totalmente da área, como tinha pensado, mas os métodos de trabalho foram reinventados para que a criatividade pudesse fluir mais livremente.

Maria João recebeu o L Manifesto na sua nova casa, um apartamento de estilo ecléctico, onde nos falou da sua carreira, dos projectos fotográficos e de como tem sido a adaptação à sua nova vida, mais livre e criativa.

 

Texto: Filipa Leal

Fotografia: Soraia do Carmo

"A minha formação é em publicidade e, durante 15 anos, tive a sorte de passar pelas melhores agências de publicidade e trabalhar as melhores marcas. Sou directora de arte, que é algo totalmente ligado à imagem, daí também a paixão pela fotografia."

"Na verdade, a fotografia surgiu muito antes disso, é uma paixão que começou espontaneamente nos meus tempos de liceu. Andava sempre com uma máquina fotográfica para todo o lado, porque gostava de registar os meus amigos. A minha paixão pela fotografia são as pessoas, os momentos, o fascínio de poder guardar para sempre os momentos que passam."

"Mais tarde comecei, então, a dedicar-me à publicidade. Sou muito apaixonada por essa área, gosto muito de ter ideias e criar conceitos. Mas a publicidade provocou outra coisa em mim. Quando se trabalha nesta área, como criativo, tem-se a expectativa de fazer um trabalho criativo. Mas, curiosamente, é das profissões onde se castra mais a criatividade. Estamos sujeitos à opinião dos clientes, o produto final nunca corresponde à nossa ideia inicial, e lidamos com uma série de condicionantes que acabam por castrar imenso a nossa criatividade..."

"Durante este processo, que me criou alguma frustração, tentei encontrar escapes criativos e a fotografia foi, mais uma vez, o meu escape. Tirei um curso e já há muitos anos que tenho uma empresa ligada à fotografia de casamentos, a Glimpse. Fotografar casamentos acabou por moldar muito o meu tipo de fotografia, porque percebi que gostava de explorar os sentimentos e as emoções. Por outro lado, apaixonei-me ainda mais por fotografar pessoas, sobretudo pessoas reais, que não gostavam ou não estavam habituadas a ser fotografadas."

"Tenho os meus projectos de fotografia, com o Change It, que não tem qualquer pretensão de ser um trabalho profissional. É o meu escape criativo e eu não quero perder o prazer que tenho a fazê-lo. Acho que, a partir do momento em que isto se tornar muito sério, acabará por perder a graça."

"Fotografo modelos ou pessoas que eu acho interessantes, e tenho a minha maior inspiração que é o Miguel. A fotografia é um acto de dar amor. É por isso que gosto de fotografar o Miguel, o meu gato, os meus amigos, porque estou a dar-lhes amor, a mostrar como é que eu os vejo."

"Tenho outra paixão na fotografia que são as viagens. As fotografias de viagem são das fotografias que mais gosto de fazer. Costumo dizer que fotografo porque viajo e viajo porque fotografo. E mesmo as minhas fotografias de viagem envolvem sempre pessoas, porque é, de facto, o que mais gosto de fotografar."

"Esta foi tirada no Arpoador, no Rio de Janeiro. Já me disseram muitas vezes que parece uma pintura. Tenho várias fotografias neste local e ficam sempre com esta luz. A verdade é que o mérito é muito mais do local do que do fotógrafo. De facto, tem uma luz maravilhosa, o sol põe-se ali e é tudo em tons dourados e verdes... As imagens ficam sempre muito bonitas."

Quando questionada sobre outras formas de expressar a sua criatividade, a direcção de arte continua a assumir o papel principal. Maria João não esconde a paixão que sente pela área, mas confessa que sentia falta de liberdade criativa.

"A direcção de arte continua a ser uma das minhas maiores formas de expressão criativa. Quando tenho oportunidade de fazer projectos de publicidade, de imagem, de identidade de marca, e me dizem que o briefing é aberto, eu aproveito essas oportunidades ao máximo para dar asas à minha criatividade. Gosto muito de direcção de arte e de comunicação. Cansaram-me os 15 anos de clientes e de agências, é um facto, mas continuo a adorar fazer campanhas."

"Quando deixei a última agência, onde estive 8 anos, pensava mesmo que ia deixar o ramo da publicidade. Mas uma semana depois estava noutra agência, como freelancer. Acho que isso acontece por duas razões: por necessidade financeira, obviamente, mas também porque eu gosto mesmo de publicidade. Sou viciada naquilo, é uma profissão super stressante, puxa imenso por nós."

Com uma introdução bastante completa sobre o seu percurso profissional, passamos então aos pormenores da casa que, desde o primeiro minuto, prenderam o nosso olhar. A sala de estar, como quase todas as divisões, é fruto de uma mistura de estilos e influências, que, juntamente com as fotografias expostas, lhe conferem uma identidade única e peculiar. É onde Maria nos recebe e onde conversamos grande parte do tempo. Encaminha-nos para a divisão imediatamente ao lado: o novo "escritório". É um espaço cool e moderno, que faz a ligação entre a sala de estar e a marquise, recebendo raios de sol todo o dia e proporcionando o ambiente ideal para desenvolver livremente trabalhos criativos.

"Aqui é onde passamos o dia inteiro. Somos os dois freelancers, o Miguel é músico e fotógrafo, por isso aqui é onde ele cria a música dele. E é também onde eu faço os meus trabalhos de freelancer, porque acabei por conseguir angariar muitos clientes de publicidade."

"As fotografias que estão à vista são todas do Miguel. O trabalho dele é uma grande inspiração para mim, sempre foi. Temos trabalhos muito criativos e inspiramo-nos um ao outro, mutuamente. Foi bom reinventar uma nova forma de trabalhar, acaba por ser muito mais inspirador do que trabalhar num escritório, das 9h às 19h, todos os dias, sempre da mesma maneira. Aqui, curiosamente, acabo por ter mais liberdade e inspiração."

"Este é o nosso quarto, resolvemos por o tapete na parede em vez de estar no chão. É aqui que quardo um dos meus maiores vícios, que são os kimonos. Adoro peças compridas, tenho várias: casacos, vestidos, peças vintage... E é aqui que tenho as minhas peças preferidas, as que uso mais."

"O rock e os anos 70 são talvez das maiores inspirações para me vestir. Adoro lojas vintage e a maioria das minhas peças preferidas são vintage. Tenho muitos casacos e adoro usar muita bijuteria, chapéus e botas."

Por último, questionámos Maria João sobre as suas fotografias e a sua visão e estilo. A forma única e singular como fotografa pessoas pode ser vista como algo muito intimista, o que nos levou também a introduzir esta entrevista no tema Urban Intimacy.

"A fotografia do Miguel, por exemplo, foi completamente espontânea, não foi estudada. Apanhei-o na intimidade dele e ele nem percebeu que eu o estava a fotografar naquele momento. Nesse sentido, acho que a minha fotografia tem um carácter muito íntimo. Tem muito a ver com a intimidade que tenho com as pessoas que fotografo, e também porque gosto de fotografar pessoas que fazem parte da minha vida e da minha intimidade. As fotografias acabam por ser duplamente íntimas, porque reflectem a minha intimidade e a de quem é fotografado."