SOLO: Joana Astolfi

Concrete Jungle

SOLO: Joana Astolfi

por27 Mar 2017 lmanifesto

Há pessoas e pessoas, artistas e artistas, mulheres e mulheres.

Pode parecer que começámos este texto de uma forma popular e até trivial, mas a verdade é esta, pura e dura. Falamos de uma mulher inspiradora e com um E de excepcional!

Quando, numa brainstorming session, o tema Concrete Jungle surgiu, quase em uníssono, a vontade de delinear a estratégia, programar conteúdos, pensar em quem pudesse personificar e "tangibilizar" este conceito, impôs-se com uma seriedade quase fora do comum! De alguma forma, abordamos um tema que nos é próximo e que vai descrever a nossa existência dentro de uma selva de cimento, que é a nossa!

Precisávamos de alguém que transmitisse essa vontade e este estado, de uma forma avassaladora, quase visceral, que representasse essa paixão pela cidade em que vivemos.

Nenhum outro nome surgiu, Joana Astolfi foi o primeiro e o único.

 

Texto: Margarida Marinho

Fotografia: Maria Rita

Não é difícil entender o porquê, falamos de uma mulher que é mãe, arquitecta, designer e artista. Carrega em si, um peso e valor criativo e fá-lo com confiança, com determinação, com aquela leveza invejada mas, ao mesmo tempo, tão típica de alguns artistas. Já conhecíamos o trabalho de Astolfi, mas, naturalmente, fomos pesquisar um pouco mais sobre o seu percurso. Pequenas borboletas começaram a bater asas e a querer esvoaçar bem no centro da nossa barriga. Vamos abordar a sua carreira e a sua obra, de uma forma muito sucinta e sem querer tirar qualquer tipo de valor a nenhuma fase do seu percurso, simplesmente porque não temos o tempo nem o scroll down necessários para replicar a conversa inspiradora que tivemos.

Filha de pai brasileiro (carioca de gema) e mãe portuguesa, diz que foi da figura paterna que herdou a sua faceta nómada e o desejo de explorar o mundo, de conhecer outras culturas: viveu em Londres, Munique, Los Angeles e Veneza. Porém foi Lisboa que lhe roubou o coração. 

 

Em Londres, formou-se em Arquitectura pela Universidade de Wales, estagiou em Munique e depois, seguiu-se, o Porto, Foi quando voltou para Portugal que recebeu o convite para integrar a Fabrica, centro de pesquisa e criação da Benetton, sediado em Veneza. Aí ficou durante 2 anos.

Porém, 2004 foi o ano em que, efectivamente, voltou para o seu país de origem e prosseguiu com os seus projectos de arte, design, arquitectura e, em 2009, a viver em Lisboa há 5 anos, criou o Studio Astolfi. Uma equipa multidisciplinar da qual actualmente fazem parte cerca de 15 pessoas e que foi crescendo de acordo com a constante procura e paixão pela estética e ADN artístico da nossa entrevistada.

Para além da sua carreira de artista a solo através da qual cria um imaginário trabalhado em diferentes escalas, a escala das maquetes, das casas de bonecas que sempre a cativaram, Joana vai atribuindo significados a objectos que adora coleccionar e aos quais dá uma segunda vida. Hoje em dia, dedica-se a projectos em grande escala, exemplo disso são: o Village Underground, os Restaurantes Belcanto e o Cantinho do Chef Avillez, O Park Rooftop Bar, a Padaria Portuguesa no Príncipe Real, exposições e instalações artísticas localizadas em Lisboa e noutras cidades. A par disso, é responsável pela cenografia das montras da Hermés, em Portugal.

Na realidade, Joana é uma mulher sem medo de arriscar e que se move pela paixão, pelo rigor, por um sentido estético único e pelo seu amor à cidade das 7 colinas.

 

Cresci rodeada de artistas, arquitectos, de intelectuais, pessoas mais velhas. O meu pai é arquitecto e a minha mãe galerista e tinham sempre a casa cheia de amigos e isso inspirou-me. Na verdade, sempre tive uma paixão pelas duas áreas, pela tridimensionalidade do espaço, do objecto e pela arte. Daí que decidi estudar arquitectura, não que o meu pai me tenha influenciado nesse ponto. Concluí que foi uma decisão acertada porque através da arquitectura ganhei uma base mais disciplinada.

 

Sempre fui muito curiosa e observadora, lembro-me de passar muito tempo a observar os pormenores, todos os detalhes. A arte sempre me fascinou e, como filha única que era e sou, a minha forma de estar sozinha passava sempre por estar pintar e a desenhar, bastava ter o meu bloquinho e os meus lápis e estava bem. A arte sempre foi uma terapia, uma forma de estar sozinha e a minha salvação.

 

Desde pequenina que sou uma collector, sempre adorei objectos e detalhes e, ao mesmo tempo, sempre tive um lado voyeur, adoro observar pessoas, pássaros, cores, quando tenho tempo, perco-me! E é aí que, por exemplo, ao ver a beleza e harmonia das cores de um pássaro sou quase compelida a questionar-me se não existirá um Deus, mesmo não sendo católica!

Aqui em casa tenho poucas peças minhas, não que não goste, mas porque foram todas embora! Tenho uma relação umbilical com cada uma, seja ela uma instalação artística de grande escala ou uma simples caixinha de fósforos. Ela passa por dentro de mim, dá a volta e depois é concebida. Quando as vejo, passados alguns anos, claro que olho para ela e penso que poderia tê-la feito de outra forma, muita coisa mudou e a minha enciclopédia visual triplicou,  but I don't care! Na verdade, é como revisitar um velho amigo! Quando vou a um espaço que desenvolvi, seja a casa de um amigo, um restaurante ou bar, e vejo que há pessoas a usufruírem daquele espaço, sinto uma coisa tão boa!

 

Em destaque uma das peças mais icónicas da artista, os iShell, um object d'art  que envia uma mensagem nostálgica, com uma boa dose de ironia, para a I-generation. 

Esta é uma peça que fiz e que se chama: allow endings. Tenho muita dificuldade em permitir e em chegar aos fins. Eu guardava sempre as pontinhas dos lápis e decidi celebrar essa história com uma peça em prata, edição limitada, com a chapinha que diz allow endings e que ainda vem com um afia. É bonita e podemos usar à volta do pescoço.

Este painel foi feito para uma montra da Hermès, estão aqui cerca de 70 portas portuguesas cortadas em losangos.

Gosto de coleccionar frasquinhos de todo o lado do mundo, esta vitrine é um reflexo dessa minha paixão!

Odeio rotinas, um dia tem de ser diferente do outro. Gosto de me sentir livre e independente, de sentir que estou a conduzir o meu barco, apesar de envolver muita responsabilidade e muito trabalho. Não conseguiria jamais trabalhar em exclusivo para uma marca ou passar a minha vida à frente de um computador. Sempre me disseram que antes de tudo, era artista na alma, e sim, é verdade, sempre soube! Gosto dessa espontaneidade. Tem uma loucura inerente, uma transversalidade. 

 

Sou o resultado do cruzamento entre a arquitecta e a artista, o design está inerente! É esta fusão que me interessa. Se me perguntarem o que é que eu faço, eu digo que trabalho espaços e objectos de uma forma plástica. Gosto da parte cromática, das texturas, quase se equipara a pintar uma tela.

 

 

Mas no meio disto, o que me faz mais feliz é saber que criei uma linguagem e que essa linguagem tem um nome: Astolfi. É maravilhoso! Eu não quero que ninguém conheça a minha cara mas quero que identifique aquele ADN que está implícito no nosso trabalho. O facto de, quando um trabalho nosso sai para a rua, ver que as pessoas identificam a linguagem e afirmam que é Astolfi, com toda a certeza, é incrível! Foi um trabalho construído com base no rigor e na coerência, esse é o segredo! Em relação os projectos, não aceitamos tudo mas, hoje em dia, a beleza está no facto das pessoas já conhecerem a nossa linguagem e quando me chamam é porque se revêem e, enquanto clientes, estão totalmente porosos e de coração aberto para ouvir as nossas ideias! Aí reside o grande problema, é que os projectos que surgem são tão interessantes que é difícil escolher! Comecei por guiar um barco a remos e agora, 10 anos depois, já me sinto a comandar num transatlântico mas, olhando para trás, esta evolução foi muito natural e progressiva. 

Voltando à paixão que nos confessou ter,  Joana chegou a estar à frente de alguns workshops cujo ponto de partida era precisamente o objecto.

 

Explorávamos a transformação do objecto, o intuito era dar-lhe uma segunda vida. Num dos workshops, levei os alunos à feira da ladra e cada um comprou um objecto pelo qual se apaixonou. Depois, no meu atelier, transformámos esses mesmos objectos em obras de arte. Lembro-me de um dos alunos ter comprado diversas luvas antigas, uma repetição, e com elas fizemos uma manta de patchwork de luvas! Ressuscitámos objectos obsoletos, limpámos o pó e deixámo-los respirar, é muito interessante! Dar-lhes uma second chance. No fundo, é a tensão entre o antigo e o contemporâneo que me interessa, é o pegar num objecto do séc. XVIII e trazê-lo para uma narrativa contemporânea, é o que gosto de trabalhar e o que me desafia.

 

Continuámos a falar das suas inspirações e das suas paixões.

Adoraria ter tempo de deambular pela cidade. Mas os meus dias são muito complicados e chego a ter 5 reuniões, então, aproveito enquanto estou no trânsito para pesquisar, para observar. Quando a minha agenda o permite, e porque também preciso, adoro sentar-me num café, com o meu sketchbook a pensar sobre os meus projectos. Mas normalmente, faço-o no silêncio da noite, depois da minha filha ir dormir, funciono bem nesse horário.

 

Surgiu a vontade de saber um pouco mais sobre os locais onde vai buscar inspiração e encontrar os ditos objectos aos quais atribui uma segunda vida.

Vou muito à feira da ladra, lá toda a gente me conhece. O interessante é o que está por trás, nos armazéns, adoro brincar/trabalhar por lá! Há uma loja onde gosto imenso de ir,  As memórias do tempo, tem objectos antigos e bonitos, já quando procuro mobiliário, vou ao Cantinho do Vintage, arranjam-me sempre coisas incríveis ou à Mobler, que é uma loja perto da minha casa. Tenho, também, uma série de locais na baixa onde me perco, os douradores, as pessoas que produzem os carimbos antigos, os lacres, sou fascinada pelo estacionário, os encadernadores... Se falarmos em trabalhar ou organizar ideias, gosto de ir para sítios calmos, gosto do Copenhagen Coffee Lab ou o Hello Kristof, lá sinto-me tranquila.

 

Depois junto tudo e começo a criar e a preparar um conceito, chego ao estúdio e partilho com a equipa, quer seja a área criativa, que pega na base e começa a desenvolver o conceito, ou com a área de execução que ficam responsáveis por estudar o que se pode ou fazer, sem bem que para mim tudo é possível. Temos imensas brainstorm sessions e é maravilhoso, às vezes as ideias surgem de colaboradores. Nessas alturas faço questão que participe, não só a equipa criativa mas, também, os arquitectos. Gosto muito dessa hibridez, desse cruzamento entre a arquitectura e a arte, juntando artistas que, ao mesmo tempo, consigam sentir o espaço.

No caso da Hermès, estamos há 3 anos com a marca e esperamos estar muitos mais. É um cliente muito especial e muito exigente, também o somos, e isso leva-nos constantemente a tentar superarmo-nos. Não estamos a falar de vitrinismo mas, sim, cenografia. É uma marca que puxa por nós e onde existe uma troca muito interessante, entendem exactamente de onde vimos em termos criativos, há um diálogo! Todos os anos é lançado um tema que será, posteriormente, trabalhado em 4 sub-temas e temos de o aplicar a 10 vitrines. É exigente mas é um grande desafio e ver o resultado, é fantástico! Criar é um processo doloroso, é dor, não é divertido, é um constante push it further mas isso é o que pauta a qualidade do nosso trabalho. Depois é executar, com o rigor, isso são os outros 50%,  é duro! É um trabalho que passa por muitos layers mas a beleza é essa, é o facto de um pessoa passar pela loja de manhã e ver uma montra diferente, em que a mensagem que passa é o belo.

A beleza e a estética são o meu drive, a beleza é fundamental! O processo até chegar ao resultado final é naturalmente aquilo ao qual eu dou mais atenção, mas a beleza é sempre um ponto de partida na concepção. Existe o conceito, a mensagem, a narrativa, porque o que fazemos é contar uma história mas o belo faz sempre parte do percurso todo até ao final.

 

Todos os projectos têm a sua beleza, mas posso citar, por exemplo, o projecto da Padaria Portuguesa, no Príncipe Real, foi uma viagem muito interessante em que tivemos de transformar uma antiga sucursal de um banco numa padaria do sul de Itália. O espaço era uma espécie de aquário com 4 paredes de betão e tirámos tudo, não há ali nenhum tijolo terracota que estivesse lá, foi um desafio interessante! Costumava fazer imenso design de exposição e lembro-me da exposição dos 100 anos da CUF onde queria de transformar um museu industrial numa espécie de galeria com instalações contemporâneas feitas a partir de materiais existentes no meio de fábricas. Tivemos de ir à procura de materiais em fábricas obsoletas, íamos de fatos e luvas à procura de tudo porque não havia nenhum inventário, ficou incrível! Mas a Hermés, é um projecto que me dá imenso gozo! Olhar para trás e ver que o projecto terminado conta uma história e que dá para a ler, deixa-me feliz!

 

Voltando ao ponto de partida do nosso Solo, queríamos saber em que medida Lisboa apaixonava Joana e tocava o seu trabalho.

Sim, a cidade é a minha matéria-prima! Há pessoas, artistas, que vão buscar inspiração à natureza, eu não sou assim! Sou claramente uma pessoa urbana! Naturalmente há momentos em que preciso de sair e apanhar ar mas tenho de saber que vou voltar, passados 3,5 dias ou 2 semanas. Escolhi Lisboa como base, estou aqui porque quero, porque amo o ritmo da cidade, a luz, o calor humano e a escala da cidade! Sou um bocadinho mais acelerada mas quando quero acalmar encontro um sítio onde o fazer e ver um pôr-do-sol. Lisboa está na boca do mundo, é um privilégio viver cá! Aliás, cada vez mais somos contactados por imobiliárias que querem recuperar palacetes e transformá-los em boutique hotéis, por exemplo. No entanto, ao mesmo tempo, os “locals” continuam por cá e gostam de conservar a tradição.

 

Este lado urbano, cromático, das texturas, os pormenores, a própria arquitectura da cidade, as fachadas, apaixonam-me! Para além disso, a minha ligação com os artesãos, o sentar-me aos balcões com os senhores mais velhos e ouvir as histórias que têm para nos contar, tal como fazia com os amigos os meus pais, acabam por ser triggers de projectos. 

 

Em tom de despedida e brindando-nos com um pouco da sua ascendência carioca, Joana colocou a agulha do gira-discos sobre o vinil que ali se encontrava e Elis Regina começa a tocar. Enquanto isso, terminávamos a visita e percorríamos alguns dos detalhes mais inspiradores que tem distribuídos por sua casa e que fez questão de nos revelar cada história. Colecciona objectos, sabemos que sim, mas acima de tudo colecciona e guarda histórias ricas em significado e beleza, que colorem o seu percurso e vida tão ímpares. Quando pensamos no imaginário que cria e de que há pouco falava, Joana Astolfi, mostra que é possível não só delineá-lo como transportá-lo para a escala real, desde que as ferramentas utilizadas tenham como base a coragem para arriscar e a paixão, aí sim, como gosta de dizer: tudo é possível!

© 2017 L Manifesto

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