Conhecemo-la de várias frentes do Universo da Moda: Stylist, jornalista e editora de moda, Pureza Fleming é, (usando um americanismo), uma triple threat. Reúne uma multiplicidade de talentos e, uma visão e entendimento de Moda, que gosta de traduzir em interessantes e mordazes crónicas. Para além disso, é detentora de uma postura condizente com este tema: Rock! Para nós o Rock não morreu e, para Pureza, também não!

 

Fotografia: Maria Zambujal

Texto: Pureza Fleming

As palavras que encabeçam este texto não são, seguramente, as mais apropriadas para o momento, podendo até maçar as mais sensíveis personalidades que se bamboleiem por este mundo digital fora. 2016 foi, efectivamente, um ano de perdas. Sublinhando e reformulando: desmesuradas perdas. Ou então, como sugeriu Vitor Belanciano no título de uma recente peça que assinou para o jornal Público, a propósito das mortes absurdas a que o passado ano (e já podemos dizer “passado”) nos fez presenciar: “2016 foi ano em que a morte nos agarrou à vida”.

Após o desprezível período de 12 meses que acabámos de presenciar poderíamos dizer por unanimidade que o Rock está, de facto, morto. Foi de uma só e violentíssima leva que 2016 nos deu o desprazer de ver partir alguns dos maiores nomes do rock. David Bowie, Prince, Leonard Cohen e — para encerrar o número seis numa beleza sarcástica e ridícula de tão debochante —, George Michael, romperam as barreiras da vida para deixar a esfera azul um bocadinho mais boring — e não só musicalmente falando, porque as personagens em questão não vingaram apenas pelas suas bonitas vozes.

Há muito que o universo roqueiro dita as regras do estilo, e fá-lo precisamente graças à existência de caracteres e personalidades tão singulares como foram o caso de alguns dos nomes que sumiram em 2016. Porque é — também — através da moda, que os símbolos do rock perduram no tempo, com gerações atrás de gerações que teimam em imitar os seus ídolos da única forma que o podem fazer: usando o mesmo tipo de roupa, vestindo o mesmo estilo, tornando-se seguidores e prolongamentos do rock cantado. 

Se acrescentarmos à equação as fortíssimas coligações entre rock stars e super modelos — a citar Mick Jagger e Jerry Hall; David Bowie e Iman; os recentemente separados Kate Moss e Jamie Hince; Keith Richards e Patti Hansen; entre muitos outros — então sabemos com toda a certeza que estamos perante uma fórmula de sucesso, essa que junta rock e moda numa só equação.

Também nas passerelles o som do género musical com mais variações de sempre se faz sentir temporada após temporada. São inúmeros os criadores que vão beber à fonte do rock, porém há nomes que o fazem assumida e eximiamente. Nas últimas estações é impossível não destacar a Saint Laurent de Hedi Slimane (entretanto retirado e substituído por Anthony Vaccarello). O espírito rebelde de Slimane foi ao âmago da casa francesa e deu-lhe o toque moderno, arriscado e irreverente que lhe faltou durante alguns anos, mais precisamente entre o pós Yves e o pré Slimane. Num misto de amor/ódio, o público retraiu-se perante o rock avant garde que a casa passou a oferecer. Quem amou vestiu a camisola, assim como as peças repletas de rasgões, os collants em rede, as botifarras pretas cobertas de fivelas e tachas. Os que de início desprezaram este novo espírito roqueiro da Saint Laurent, acabaram por sucumbir ao batom vermelho, ao perfecto mais-que-perfeito, ou às mini saias em vinil estrategicamente rematadas por partes de cima onde os ombros à la eighties se destacaram abusadamente.

Numa época em que assistimos na primeira fila a uma falência do conceito de stars, como o mundo sempre conheceu, onde o estrelismo passou a ser o resultado do que se mostra e não do que se é, deve a moda continuar a prolongar uma figura que quase já não existe? Será a ausência de personalidades com o calibre roqueiro de um David Bowie na música ou de uma Kate Moss na moda, que gera um repentino — e merecedor — fanatismo às lendárias Patti Smith desta vida?

Podemos permitir que as gerações futuras sem conhecimento algum de quem foram as verdadeirasrock stars da história continuem a usar aleatoriamente biker jackets, botas com tachas e lenços às cornucópias? No meio de tanta questão só me surge a verdade autêntica que clarifica tudo respondendo que sim, pode e deve. Porque um dos mais belos flancos da moda é precisamente esse de ter a capacidade de eternizar. Ela perpetua padrões, conserva estilos, imortaliza nomes, e ainda celebra vidas — nem que seja através de uma T.-shirt com um rosto estampado. Sim, a moda prorroga vidas que merecem ser recordadas todos os dias, como é o caso de Prince, David Bowie, Leonard Cohen ou George Michael. E é exactamente isso que precisamos depois de tudo o que o ano de 2016, sem dó nem piedade, nos retirou.