La fille Rock et Bohème: Anne Amorim

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La fille Rock et Bohème: Anne Amorim

por6 Jan 2017 lmanifesto

Num momento em que Manuais de estilo pretendem ensinar-nos como ser “uma Parisiense em qualquer lugar do mundo”, Anne Amorim é-o desde o berço, na própria Cidade Luz, e com código genético português.

A luso-descendente é PR Manager da Zadig et Voltaire, em Paris, há cerca de 5 anos, mas, mantém uma ponte sólida com Portugal, país onde estão as raízes familiares e que visita, com cada vez mais frequência. Foi numa dessas frequentes, porém curtas, estadias em Lisboa que conversámos com ela, pela tarde dentro.

 

Texto e Fotografia: Soraia do Carmo

Chegámos acompanhadas pela chuva ao apartamento lisboeta da família de Anne. Uma casa onde cada canto documenta uma Portugalidade assumida, através de símbolos típicos portugueses e objectos tradicionais, que Anne e a família, descobriram em feiras de velharias e antiguidades.

Fisicamente, as origens da parisiense não são dúbias, de pele morena e traços fortes e exóticos, denota-se, quase de imediato, um ADN ibérico. De facto, Anne nasceu em Paris, mas viveu sempre num ambiente cultural bi-partido, com direito aos sagrados meses de Agosto em que a família rumava a Portugal para passar férias, como recordou saudosa.

Porém, a vida construiu-se em França, e o Presente ainda se desenrola por lá. Estudou Comunicação, mas apenas mais tarde percebeu que o seu caminho iria afunilar nas Relações Públicas. Todavia, uma curiosidade: De algum modo sempre soube que acabaria por trabalhar na área da Moda!

 “Desde pequena que a minha mãe me disse que eu iria trabalhar em Moda. Acho que sempre tive sensibilidade para isso. Queria dar conselhos a toda a gente, até à minha irmã, 12 anos mais velha, eu tentava dizer o que vestir”.

Durante algum tempo acreditou que poderia tornar-se estilista, mas, claramente, o destino tinha outros planos para Anne. “Com 17 anos fiz um estágio na Maison Christian Lacroix e foi uma confirmação que esta era a área onde queria trabalhar, e especificamente, na função de RP. Nessa casa trabalhei no gabinete de comunicação e também tive oportunidade de ajudar a assistente pessoal do Christian Lacroix, por isso, fiquei muito próxima dele. Ainda durante o meu período de estágio tive a oportunidade de ajudar no desfile de alta-costura… E, para mim foi um sonho!”

A progressão de Anne, a partir desse momento, é um desenrolar de nomes marcantes que qualquer miúda fashion-oriented hiperventila só de ouvir… Viver em Paris é claramente uma vantagem, mas não é um dado adquirido, nesta equação entram variáveis de persistência e disciplina profissional rígida, como sublinha Anne. Só assim é possível construir um percurso onde se multiplicam nomes como, Antik Batik, Hermés, Thierry Mugler. Sobre este último, Anne contou-nos que trabalhou no gabinete de comunicação e no departamento de arquivo, onde recorda com um, ainda intacto, entusiasmo o contacto que manteve com peças únicas, ícones estéticos dos anos 90, época áurea de Thierry Mugler e dos seus desfiles-espectáculo. “Ter à minha frente, por exemplo, o vestido Chimère envergado pela Adriana Karembeu, em 1998, foi maravilhoso! Estava a lidar com Arte! E, mesmo ter acesso ao guarda-roupa do videoclip Too Funky do George Michael, nomeadamente ao Motorcycle-Corset… Ver isto tudo perante mim e trabalhar também as fotografias e os vídeos no arquivo foi, novamente, uma confirmação do que queria fazer no futuro!”

E, o futuro respondeu… Anne trabalhava na Gerard Darel quando recebeu o telefonema que lhe mudou a vida. Do outro lado da linha, uma proposta da Zadig etVoltaire para trabalhar no gabinete de comunicação da marca. “A verdade é que tudo estava a correr bem na Gerard Darel, mas eu queria mesmo trabalhar numa marca com a qual me identificasse totalmente, mesmo em termos de estilo pessoal. Isso é importante porque a nossa sensibilidade ao trabalhar a marca é maior, desta forma”. 

A progressão de Anne na empresa fluiu até chegar a PR Manager. Contribuiu muito a identificação clara com os cânones Zadig. “Faz parte do meu carácter ser um pouco Rock e também Bohéme. Por vezes sou muito calma, e pratico Yoga… Mas depois tenho um lado Rock, mais rebelde. No contexto profissional sou muito assertiva e persistente, quando tenho uma ideia ou um objectivo na cabeça vou até ao fim. Confirmei o meu estilo Rocker na Zadig! E, mesmo na vida pessoal também tenho um lado rebelde, por exemplo, no ano passado quis tirar a carta de mota e não descansei até conseguir fazê-lo!”

Anne sempre adicionou peças da marca ao guarda-roupa, de forma orgânica. “Às vezes olho para mim e estou num look total Zadig, sem ter pensado nisso. Mas, de facto é importante mostrar a coleção e vestir a colecção. Nas apresentações é bom ter uma peça da coleção vigente pois pode ser um ponto de partida para um tema de conversa. Mas gosto de misturar marcas e comprar Vintage…”

E, aqui entra um amor confesso de Anne, pelo antigo. “Há lojas vintage que gosto no Marais, Port de Clignancourt e já fiz boas descobertas em Lisboa, também!”

Anne estabelece, até, paralelos entre o estilo das lisboetas e das parisienses naquilo que chama “um négligé trabalhado e premeditado”. E, acrescenta: “Em Lisboa há ambientes muito artsy e fashion, e outros bastante underground, como  Lx Factory ou o Lux. Por vezes, vejo aqui misturas de Paris, Berlim, Londres! Lisboa é muito Rock também!”.

Por esta altura, a nossa conversa já deambulava entre Moda, experiências mútuas, música e os festivais portugueses que Anne não perde… E, um facto curioso surgiu deste tópico: a Zadig et Voltaire possibilitou-lhe uma experiência inédita, “Tivemos uma editora de música também, trabalhei no projecto há dois anos no lançamento do grupo "Sixtine". Um projecto electro de um casal: Audrey, a cantora, e Rico, dj/compositor. Até tive a oportunidade de conhecer o Guy-Manuel de Homem Christo dos Daft Punk,  no estúdio do casal, e foi óptimo!”

É esta riqueza de experiências culturais que Anne sentiria mais falta quando confrontada com a pergunta difícil: “Trocarias Paris por Lisboa?”. Respirou fundo antes de responder e disse-nos: “A cultura em Paris é muito rica. Há coisas que acontecem lá e que não acontecem em Portugal. Como no mundo da Arte, há pouco tempo comprei uma fotografia exclusiva do Larry Clark, proveniente de uma sessão inédita. Algo que não encontraria aqui. Quando ouço notícias, como o encerramento do Teatro da Cornucópia, sei que isso dificilmente aconteceria em França porque o respeito pela Cultura faz parte das raízes do País!”

Porém, remata com a mensagem de empowerment pelo que fazemos na área da moda portuguesa! Seguidora de nomes como Pedro Pedro, Nair Xavier, Patrick de Pádua, é entusiasta nas palavras e quase desvanece o accent parisien . “Temos de puxar as fronteiras da Moda portuguesa. Há muita criatividade no nosso país e é lamentável que não existam mais apoios estruturais para estes designers, porque muitos não têm continuação… Portugal é um país de enorme qualidade na área têxtil e não só. As nossas fábricas produzem para várias marcas internacionais, inclusivamente Zadig et Voltaire (calçado, malhas, jerseys). Devia haver mais apoio para as marcas locais, de forma a educar os portugueses a consumir mais Made in Portugal.”

Recostadas no sofá falámos, também, de como Anne poderia intervir e trabalhar na comunicação do que se faz cá dentro, é afinal o métier dela…Afirma ser uma ideia válida, apesar do trabalho na Zadig et Voltaire ser, definitivamente, o que adora fazer. “Quem sabe um dia”… confirma sorrindo!

© 2017 L Manifesto

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