Formada em política social e criminologia, nada fazia prever, à partida, que o futuro de Helena Magalhães viesse a passar pela escrita. Ou talvez não seja bem assim... Apaixonada por livros, Helena revelou desde cedo uma forte aptidão e gosto pela escrita. Decidiu que esta era uma área que deveria explorar e, assim, enveredou pelo jornalismo.

Os rumos que tem vindo a traçar fizeram-na chegar até aqui. A menos de um mês do lançamento do seu primeiro livro, Helena esteve com a equipa do L Manifesto para nos falar dos melhores locais para ler calmamente em Lisboa, fugindo um pouco ao rebuliço da cidade. E como não poderia deixar de ser, sugeriu-nos algumas das suas obras preferidas para acompanhar cada espaço.

 

Texto: Filipa Leal

Fotografia: Soraia do Carmo

"Sempre fui uma miúda apaixonada por livros e pelo poder de ser transportada para outros mundos através de personagens que, num momento, se tornam quase como parte da nossa vida. E ler, embora possa parecer uma actividade bastante solitária, é, na verdade, todo um universo: há livros que nos ajudam, livros com os quais nos identificamos, livros que nos fazem descobrir quem somos, livros que nos ensinam, livros que nos mudam, de facto, por dentro e por fora."

"O meu sonho sempre foi conseguir, de alguma forma, transmitir aos outros algumas das emoções que vivo a ler. Não é de espantar que escrever acabasse por ser a minha vida."

"Ao longo da vida, houve muitos livros que me marcaram e que já voltei a reler mais tarde, porque se tornaram quase como parte de mim. Tal como alguns sítios em Lisboa que são locais perfeitos para quem se quer perder em histórias."

"O Monte dos Vendavais, de Emily Bronte, e Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, são duas epopeias magníficas de amor. Além deste livro que vêem nas fotografias, já comprei outra edição mais antiga do Monte dos Vendavais aqui, na livraria do Cinema Ideal. É uma edição que tenho guardada em casa, dado o risco de se danificar ainda mais pela fragilidade do papel. Livros antigos e em segunda mão são o tipo de livros que se podem encontrar aqui. E estamos num edifício centenário - o cinema mais antigo da capital - e que já abrigou uma outra centena de histórias. Todo o ambiente inspira ao arrebatamento, à intemporalidade e intensidade destas duas histórias de amor."

"Já Orgulho e Preconceito - tanto que podia falar sobre esta história - foi, eventualmente, o livro que mudou para sempre a minha forma de ver o papel da mulher na vida, nas relações e na sociedade. Li-o, pela primeira vez, tinha pouco mais de 13 anos, mas confesso que na altura talvez não o tenha interpretado da mesma forma que o fiz alguns anos mais tarde. Uma das grandes lições que qualquer pessoa pode tirar com esta história é a importância que os nossos valores vão ter nas pessoas que nos rodeiam. E acho que, sem dúvida, isso fez-me sempre procurar pessoas com valores idênticos aos meus. Além disso, este é um livro que revisito muitas vezes quando preciso de inspiração, tal como o faço na Ler Devagar, no Lx Factory. Pela sua localização e ambiente espaçoso - no andar de baixo - e sossegado - no andar de cima - é sem duvida o café-livraria onde mais tempo passo a escrever e a trabalhar".

"A Mulher do Viajante no Tempo foi uma das grandes descobertas que fiz o ano passado. Apanhei o filme na televisão uma vez e fiquei tão intrigada que comprei o livro. E claro que a leitura é absolutamente muito mais cativante e emocionalmente intensa que o filme. Faz-nos debater connosco próprios porque falamos de um conceito que sabemos ser inverosímil - o acto de viajar no tempo - mas, ao mesmo tempo, conseguimos experienciar as emoções e a fatalidade das personagens e o que o tempo faz ao amor. E uma outra descoberta que fiz este ano foi a livraria Dejà Lu, em Cascais. É uma livraria solidária, todos os livros são em segunda mão, os preços são simpáticos e 100% das receitas reverte para a Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21. O ponto forte é a zona de sofás onde podemos relaxar um pouco, enquanto procuramos alguns dos achados literários que ali se conseguem encontrar."

"Por último, não podia deixar de falar de Um Dia, de David Nicholls, uma história de amor ao longo de 20 anos e pelos vários caminhos por onde a vida nos vai levando. Destaco, por isso, a livraria-café Palavra de Viajante que alia o gosto de ler ao prazer em viajar. Embora este não seja um livro de viagens, é uma viagem pela vida de duas pessoas que podiam ser qualquer um de nós - viajamos pelos seus bons e maus momentos, pelo amor e desamor, pela perda, pelo afastamento, pela traição e pela morte. Esta história mostra-nos que, por vezes, o amor não basta. É preciso que haja sintonia e, acima de tudo, sorte - sorte de estarmos no mesmo momento de vida que a outra pessoa."

"Cinco livros com os quais nos perdemos a ler e quatro espaços onde nos podemos voltar a encontrar. E beber um café."